quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A decifrar «Vaca Profana»

Às vezes, em meus desabafos, confesso que uma de minhas frustrações é não cantar e tocar violão. Até canto, mas com certeza não lotaria o Maracanã! Ou melhor: para ser mais realista, não lotaria o "Concerto mais Pequeno do Mundo" da Rádio Comercial. Mas adoro cantar e canto! Ainda por cima sou inconveniente, canto alto, sobreponho-me ao som original. Pronto, sou uma chata!

Digo isto porque, precisamente no domingo, estávamos nós a ouvir o DVD maravilhoso do Caetano Veloso e da Maria Gadú, quando apaixonei-me pela canção «Vaca Profana» como se estivesse ouvindo-a pela primeira vez. Pus-me então a cantar... e até hoje canto... o que levou-me a querer saber mais sobre a sua letra truncada, fascinante, que arranca já com uma frase tão aguda quanto um soco no estômago: "Respeito muito minhas lágrimas/Mas ainda mais minha risada"; do gênero: valorizo todos os meus momentos difíceis mas valorizo ainda mais o que me faz feliz. Uma sabedoria assim, tinha de vir do meu amado e lindo Caetano!

«Vaca Profana» foi lançada em 1984 e composta para Gal Costa, sendo considerada uma verdadeira ode à Espanha, especialmente à Catalunha. Tem uma poesia belíssima mas de difícil interpretação, que retrata os movimentos artísticos em voga na altura. Nessa canção, Caetano começa por exaltar a necessidade de viver acima das pessoas comuns, daquilo que é considerado normal ("Vaca profana põe teus cornos/Pra fora e acima da manada"). Não se identifica com o senso comum, com a normalidade da vida e mesmo quando confessa à sua irmã a vontade de encontrar o amor, ressalva que não o vê de forma convencional; antes pelo contrário, pretende-o excêntrico, ao estilo Thelonious Monk ("Quero que pinte um amor Bethânia/Stevie Wonder, andaluz/Como o que tive em Tel Aviv/Perto do mar, longe da Cruz/Mas em composição cubista/Meu mundo Thelonius Monk's blues"). O próprio título da canção é uma provocação de Caetano a tudo aquilo que massivamente se julga sagrado. Entretanto, avesso ao que até então critica, talvez mais amadurecido ou como resultado de um demorado processo de autoconhecimento, Caetano acaba por reconhecer que muitas vezes ele próprio age consoante as pessoas "caretas" que tanto censura ao longo da canção ("Mas eu também sei ser careta/De perto ninguém é normal"). Por fim, de forma absolutamente magistral, despe-se da arrogância e, humildemente, compadece-se, por ele e pelos outros ("Gotas de leite bom na minha cara/Chuva do mesmo bom sobre os caretas").

É, sem dúvida, uma canção que reflete bem um percurso de crescimento pessoal do Caetano veloso. Convido-os, todos, a lerem a letra com atenção e cantarem comigo «Vaca Profana».


VACA PROFANA (Caetano Veloso)

Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada 
Inscrevo, assim, minhas palavras 
Na voz de uma mulher sagrada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da man...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Dona das divinas tetas
Derrama o leite bom na minha cara
E o leite mau na cara dos caretas
Segue a "movida Madrileña"
Também te mata Barcelona
Napoli, Pino, Pi, Paus, Punks
Picassos movem-se por Londres
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horizonte
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horiz...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Vaca de divinas tetas
La leche buena toda en mi garganta
La mala leche para los "puretas"
Quero que pinte um amor Bethânia
Stevie Wonder, andaluz
Como o que tive em Tel Aviv
Perto do mar, longe da cruz
Mas em composição cubista
Meu mundo Thelonius Monk`s blues
Mas em composição cubista
Meu mundo Thelonius Monk`s...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Vaca das divinas tetas
Teu bom só para o oco, minha falta
E o resto inunde as almas dos caretas
Sou tímido e espalhafatoso
Torre traçada por Gaudi
São Paulo é como o mundo todo
No mundo, um grande amor perdi
Caretas de Paris e New York
Sem mágoas, estamos aí
Caretas de Paris e New York
Sem mágoas estamos a...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Dona das divinas tetas
Quero teu leite todo em minha alma
Nada de leite mau para os caretas
Mas eu também sei ser careta
De perto, ninguém é normal
Às vezes, segue em linha reta
A vida, que é "meu bem, meu mal"
No mais, as "ramblas" do planeta
"Orchta de chufa, si us plau"
No mais, as "ramblas" do planeta
"Orchta de chufa, si us...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Deusa de assombrosas tetas
Gotas de leite bom na minha cara
Chuva do mesmo bom sobre os caretas...



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