quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

A Verdade e o Amor

Há quem diga que o amor e a verdade não se misturam. Eu não acredito. Mas há pessoas que só descobrem que amam verdadeiramente depois que mentem, que a relação se impregna de mentira, da mais obscura e desumana mentira. É pena! Às vezes já vai tarde, matou o amor do mais cruel amorcídio. 

Quando duas pessoas se amam, dizem uma à outra: Sigo-te. Fecha-se os olhos, entrelaça-se as mãos e, a partir daí, a vida continua a quatro passos. É um caminhar a dois, são sonhos sonhados juntos, são dias melhores e outros muito piores, de quem sabe que só os supera porque tem no outro um amigo. Então, como se pode amar sem confiar? O amor baseia-se na verdade, é esta a máxima, a fórmula que mantém intacto o amor quando um dos dois o coloca em risco. 

O amor, também, por vezes confunde-se... o amor zanga-se. Todavia, o amor tem medo de perder-se, de não encontrar o caminho de volta. E é por isto que o amor, o verdadeiro amor, refaz-se. 

O amor é um turbilhão de sentimentos bons e ruins, todos aglutinados da mais densa forma e que vez por outra desintegra-se como numa explosão de átomos para novamente reconstruir-se. O amor renasce. Contudo, na minha opinião, de todos os sentimentos apenas a mentira não se integra no amor.

Engana-se quem pensa que se pode amar em paz! Não, o amor não é uma experiência de paz contínua, diria mesmo que o amor é perturbador. O amor pode esvaziar-se, pode transformar-se e pode até findar-se. Só uma coisa é invariável: não haverá amor se faltar a lealdade. Com todas as diferenças possíveis, a continuidade do amor é a verdade. O amor sucumbe à mentira.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Happy Valentine's Day!

Pode parecer piegas e às vezes provoca dores incríveis. Pode até despertar cobiças... É o amor, esse sentimento extraordinário que nos mantém firmes no propósito de continuarmos juntos.

Feliz Dia do Amor!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Maria Muda

Imagem: Eligible Magazine

Havias de conhecer a Maria! Maria nunca foi, de todo, uma pessoa vulgar. Tinha imensa alegria e qualquer coisa de sonho, de encanto. Maria não caminhava, rasgava o ar ao passar... des-li-za-va... Maria não olhava, observava. Tanto ouvia quanto falava mas falar era o que Maria mais gostava. Maria discursava.

Maria amou, muitas vezes, mas uma mais que todas as outras. O amor de Maria também a amou e foram, por longos dias, felizes. Até que um dia o amor resolveu mudar a Maria. Maria não era suficientemente boa, nem era suficientemente feliz, nem inteligente era. Maria não se compreendia.

Teria a Maria existido? Haveriam Marias dentro de outras Marias? Marias aflitas, escondidas, adormecidas? Marias dançantes, elegantes, amantes? Onde estaria a Maria?

Maria olhou-se ao espelho. E viu-se, com 45 anos, uma casa, um filho, um cão, um livro. Tinha marido e emprego. Mas de tanto querer e de tanto silenciar, Maria mudou. Maria, calou-se. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Eu + Tu = Eu?: "Antes só do que amado pela metade. Sozinhos somos inteiros"

Um amigo que lê o blog e que assinala-me quando apanha um texto que tem a ver com esses alfarrábios, fez-me chegar o texto abaixo, da colunista Rebeca Bedone, da Revista Bula. Verdadeiro e motivacional, fala sobre separação, solidão e recomeço, sentimentos que todos nós já partilhamos. Àqueles que estão a vivê-lo, leiam-no com atenção e com a certeza de que a pior solidão ainda é a solidão a dois.

"Você não queria, mas disse adeus. Não havia nada mais que fizesse aquele amor ficar. Restaram somente você e os sonhos que um dia foram de duas pessoas. No vazio do quarto silencioso, sua vontade de se levantar ficava escondida no canto mais frio debaixo da cama. Estava tudo fora do lugar. Móveis, objetos e pensamentos se perderam na bagunça da despedida, na partilha para decidir quem fica com o quê. Murcharam-se as flores do canteiro da janela e você se esqueceu por que precisava sair de casa para viver. 
A gente querendo ou não, o frio vem como um beijo da morte, carregado de culpas e porquês. Traz no vento gelado dúvidas como “e se eu tivesse feito isso” ou “se não tivesse feito daquele jeito”. Chega com a solidão congelando o riso e aumentando a dor de quem fica, só não vem mais o amor que já foi embora. 
Quando deixamos o amor partir, aprendemos a deixar o inverno passar. E para que chegue a estação do sol e das flores, não podemos mais viver a vida daquele amor sem ele. Ora, você nem curte essas músicas que ouviam juntos só porque ele gostava. Antes, tudo bem. Mas, agora, por que continuar com essa tortura musical? Coloque para tocar a sua canção preferida e tire-se para dançar no meio da sua sala! Então ponha um vaso florido no centro da sua mesa de jantar enquanto reaprende a fazer as refeições somente na sua companhia. Daqui a pouco estará colhendo as flores que nascerão no jardim da sua alma. 
Atenção: não é culpa sua se mais um amor não te amou. E também não é exigindo do outro a entrega de algo que não é seu que alguém te amará. Não temos a posse do outro, então não se aflija por deixar o que não te pertence partir de você. Perdoe-se de suas dúvidas e “não se esqueça que desistir de alguém não é fracassar, é só reconhecer que não se pode amar onde não há reciprocidade”. 
Eu sei que, se você pudesse, pegaria um avião agorinha mesmo só para achar o amor de novo. Iria de barco, de trem, de bicicleta, pedindo carona. Pediria férias, as contas, um empréstimo só para viajar rastreando o cheiro do seu perfume. Ah, se você pudesse, o convidaria para tomar um café, uma cerveja, um banho quente e falariam dos seus filmes preferidos, quais livros estão lendo, sobre política, filosofia e nada. Ouviriam o silêncio da noite e suas revelações, seus planos e medos. 
Mas parece que você e o amor estão sempre se desencontrando. Quando você chega, ele já passou. Quando você vai, o amor te esperava. E nesse esconde-esconde você fica cheio de saudades, deseja o que já se foi e o que nunca chegou. Seu coração é um barquinho num oceano de lembranças, ora passeando por águas calmas, ora se perdendo em lágrimas turbulentas. 
Então deixe o inverno passar e levar seu barquinho para águas que você não conhece ainda. Navegue um pouco sem rumo, mas sempre em frente. Lembre-se que o pôr do sol acontece para que na manhã seguinte o seu oceano receba um beijo quente de luz. O amor está em algum porto distante e perto de você. 
Vai navegando sua vida porque somente você pode completá-la. Dê festa para os amigos em casa, assista a filmes, mesmo sozinho, e saia para passeios por aí com você mesmo. Seja feliz com o que você tem até não precisar ter ninguém. Vai navegando ora triste, ora feliz, mas vai navegando sem se preocupar com o tempo que falta para o amor chegar. Livre-se de convenções sociais que ditam que temos que ter alguém. Acredite, é bem melhor estar só do que ser amado pela metade. 
Não que seja fácil, mas pode se tornar uma viagem e tanto. E quando um dia você se ancorar em uma nova praia, e o calor dessa areia amanhecida aquecer a sua alma e a brisa suave que vier das ondas do amar te beijar, você saberá… É o amor sendo escrito nos versos da vida que dois corações navegantes decidiram compartilhar!"
Fonte: Revista Bula.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Correr e amar, é só começar (Atenção: este post não é só sobre mulheres e corrida)

Sou uma pessoa angustiada com os ponteiros do relógio. Adorava saber desenhar, ilustrava-me com um relógio como uma arma apontado à cabeça. É o que nesse momento melhor me descreveria, mas a verdade é que essa sensação é mais comum do que possamos imaginar. A sobrecarga de tarefas que nos impomos deixa-nos de rastos. 

Não à toa esse sentimento que algumas mulheres experienciam como stress, outras como incapacidade de progredir na carreira profissional e educacional, vem sendo motivo de preocupação dos países nos diversos encontros internacionais. Apenas como uma referência importante, em 1994, na Conferência do Cairo, falou-se em plena participação e parceria entre mulheres e homens como necessários à vida produtiva e reprodutiva, inclusive com a divisão de responsabilidades no cuidado e alimentação dos filhos e na manutenção da família. E mais se disse:
"Em todo o mundo, a mulher vê em perigo sua vida, sua saúde e seu bem-estar porque está sobrecarregada de trabalho e carece de poder e de influência. Na maior parte do mundo, as mulheres recebem menos educação formal que os homens e, ao mesmo tempo, não se reconhecem seus conhecimentos, aptidões e mecanismos de luta frente a vida. As relações de poder que impedem a mulher de alcançar uma vida sadia e plena se faz sentir em muitos níveis da sociedade, desde os mais pessoais até os mais públicos" (Cap. IV, par. 4.1, Relatório da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, Plataforma de Cairo). 
Passados mais de 20 anos desde a Conferência do Cairo, continuamos a discutir como um assunto atualíssimo a necessidade premente de empoderamento da mulher, de igualdade e equidade dos sexos e de desenvolvimento sustentável. Portanto, o tempo de uma mulher não é coisa que se resolva e se explique com um relógio apontado à cabeça, isto sim uma arma branca. 

Mas sexismos à parte, nada disso anula a possibilidade real de muitos homens, pais solteiros ou não, divorciados ou não, assumirem o papel tradicionalmente desempenhado pela mulher na família e na sociedade. É importante que se diga que, no caso das mulheres, a situação é agravada pela falta ou desequilíbrio no apoio, sobretudo, por parte do Estado e da sociedade. 

E foi por isso que, sem tempo para muito, de forma quase irônica comecei a correr. Hoje corro porque é quando mais me sinto livre de mim e da rotina; corro porque, durante aquela horinha de relógio, apodero-me do tempo. Corro sozinha, de fones no ouvido, música alta e todo o resto esquecido. 

Assim como eu, qualquer um, a princípio, pode começar e amar correr. Bastam uns bons tênis, uma roupa apropriada para o frio ou o calor e a boa disposição que se ganha pelo caminho. 

A propósito, recomendo a quem queira começar ou está a retomar os treinos, a leitura de um livro fabuloso, dirigido às meninas, mas que vale para os machos também: Correr (não) é Para Meninas, da autora Alexandra Heminsley, edição em português da Ed. Asa. A sinopse diz tudo:
"Alexandra Heminsley queria ter a cintura de uma supermodelo, as pernas de uma bailarina, a rapidez de uma gazela. Durante anos, debateu-se com estas expectativas e a realidade dos implacáveis ginásios da moda e de exercícios que a entediavam de morte. Ela queria sentir-se bem mas ver resultados rápidos. Queria ar livre e liberdade. Um dia, decidiu correr. A sua primeira corrida não acabou bem. Atualmente, já correu cinco maratonas. Como? Tudo mudou no dia em que percebeu que correr é não só um exercício físico. É também um exercício mental. É uma atitude. Por isso, embora este livro seja sobre corrida, não é apenas sobre corrida. É também sobre determinação (sim, sair da cama numa manhã chuvosa de domingo é um desafio), relações pessoais (enfrentar os intimidantes veteranos do desporto também conta), e o nosso próprio corpo (não, a gravidade não tem de interferir no nosso desempenho). Mais, é sobre cada uma de nós (e nós conseguimos chegar mais longe do que pensamos… mesmo!)."
Boa corrida! ;)

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Não te apaixones...


O texto é da autora dominicana Martha Rivera-Garrido. Explica porque um contingente de mulheres interessantes continuam sós, por opção ou falta dela. Responde a outras tantas perguntas. Achei fabuloso! Alguém, por acaso, se identifica?
"Não te apaixones por uma mulher que lê, por uma mulher que tem sentimentos, por uma mulher que escreve. Não te apaixones por uma mulher culta, maga, delirante, louca. Não te apaixones por uma mulher que pensa, que sabe o que sabe e também sabe voar, uma mulher confiante em si mesma.
Não te apaixones por uma mulher que ri ou chora quando faz amor, que sabe transformar a carne em espírito; e muito menos te apaixones por uma mulher que ama poesia (estas são as mais perigosas), ou que fica meia hora contemplando uma pintura e não é capaz de viver sem música.
Não te apaixones por uma mulher que está interessada em política, que é rebelde e sente um enorme horror pelas injustiças. Não te apaixones por uma mulher que não goste de assistir televisão.
Não te apaixones por uma mulher intensa, brincalhona e irreverente. 
Não queiras te apaixonar por uma mulher assim. Porque quando te apaixonares por uma mulher como esta, se ela vai ficar contigo ou não, se ela te ama ou não, de uma mulher assim, jamais conseguirás ficar livre."
Fonte: Cortina de Retina

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Promessas revogadas para 2015


Ahhhh... este ano que vem... vai ser "o Ano"! 

Este novo ano, prometo, vou dedicar-me a mim, mas também vou lembrar de cuidar de "nós". Andamos tão perdidos e solitários! Bem, vou trabalhar menos e melhor e, juro, vou passar mais tempo bom com a família. 

Resolverei meus problemas financeiros, sinto isso! 

No ano que vem é certinho que viajo mais. Vou andar mais leve, reduzir a carga e, importantíssimo, não vou esquecer-me de respirar enquanto olhar o pôr do sol. Sim, olharei mais sois, mais luas, olharei mais para o céu.

Este ano novo, quando for verão, andarei com os pés descalços - algumas vezes sozinha, mas não muitas - e terminarei tudo que ficou pendente. Vou dar mais abraços, mais beijos, mais risadas, farei mais visitas. Só me conterei em demonstrar que pareço tão forte. Assumirei que não sou e pronto: exigirei ajuda, por amor. 

Para o próximo ano a meta é escrever, no mínimo, uma página por dia e correr 100 dias ao longo do ano. Haverei de conseguir!

E não farei promessas, nenhuma. Que isto de promessas, quando acaba o ano, é só para deixar uma pessoa confusa com o que andou a fazer! Portanto, se as fizer, por negligência, revogo-as todas desde já. Tal como ficam revogadas todas as disposições em contrário. 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

A história do Natal, pela Vovó Ana

Estar longe e receber um e-mail com uma cartinha assim, dirigida às meninas, é mais uma prova do seu amor e a confirmação de que a distância não afasta as pessoas que se amam.

Partilhem com vossos filhos! 


"Oi Lu e Evinha, saudades de vocês! Olha hoje quero falar com vocês sobre o Natal. No dia de natal ganhamos muitos presentes e fazemos uma grande festa, mas vou contar a vocês o motivo de tanta comemoração:
O natal é comemorado no dia 25 de dezembro, mas a festa sempre começa um dia antes, durante a ceia de natal! É quando a mamãe prepara aquela mesa cheia de coisas gostosas para comer. A tradição da ceia vem da "Santa Ceia", quando Cristo reuniu seus Apóstolos e instituiu o Santíssimo Sacramento.
No dia de Natal é celebrado o nascimento de Jesus e, sendo o aniversário dele, nada mais importante do que comemorarmos este dia. Ele nasceu em Belém, em uma gruta, e durante sua vida espalhou pelo mundo lições de amor ao próximo.
A história nos conta que no dia do nascimento de Jesus, uma grande estrela, guiou os três Reis Magos: Belchior, Baltasar e Gaspar, até o local onde nasceu Jesus, uma pequena manjedoura (um pequeno curral). Os três Reis Magos levaram presentes para Ele. Um levou ouro, o outro incenso e o outro mirra.
O ouro que representa a realeza (que Jesus é rei), o incenso que representa a divindade (que ele é o divino, filho de Deus) e a mirra que representa a imortalidade (Jesus ressuscitou).
A visita dos Reis Magos a Jesus está representada nos presépios, que até hoje são montados durante a espera do Natal. Sabe como isto começou? Quem primeiro montou presépio foi São Francisco de Assis, em 1224. Todos ficaram tão encantados de como ele contava a história do nascimento de Jesus, que a partir daí, a tradição de montar o presépio ganhou o mundo.
Outro símbolo muito importante no natal são as árvores enfeitadas. Para nossa religião a árvore de natal, toda verde, é sinal de vida, enquanto as bolas nela penduradas significam os bons frutos oferecidos por Jesus à Humanidade. Já as velas que usamos no Natal representam a presença de Cristo como Luz.
Ah! E o Papai Noel. Diz a lenda que ele vive no Pólo Norte e tem uma fábrica de brinquedos, onde trabalham seus ajudantes, os duendes. Na noite de natal, ele pega seu trenó, puxado por renas voadoras, enche seu saco vermelho de presentes e sai para presentear todas as crianças que se comportaram bem durante o ano. A figura do bom velhinho de barbas brancas foi inspirada no bispo São Nicolau. "Atribuíram-se a ele vários milagres, mas o que marcou definitivamente foi sua bondade e a prática de distribuir presentes entre as crianças".
Outra coisa importante no Natal é ajudar quem mais precisa. É um gesto muito bonito, pois mais importante do que receber, é dar. Por isto é importante tirar aquelas roupinhas e brinquedos que não usamos mais para doar a uma criança que precisa. Podemos também pedir a mamãe para comprar um brinquedo para crianças, que os papais não podem comprar presentes para eles ou mesmo comprar comidas e guloseimas e entregar em orfanatos e fazer a noite de Natal destas crianças uma alegria. 
Feliz Natal para vocês minhas meninas amadas. 
Da dinda vó Ana" 

sábado, 20 de dezembro de 2014

Ciranda da Bailarina


"Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Berruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem

Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem

Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem

Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem

O padre também
Pode até ficar vermelho 
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem

Procurando bem
Todo mundo tem..."

(Chico Buarque)


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Fala, Amendoeira*


"Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza - essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão - névoa baixa e seca, hostil aos aviões. Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes. Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino.

Essa árvore de certo modo incorporada aos bens pessoais, alguns fios elétricos lhe atravessam a fronde, sem que a molestem, e a luz crua do projetor, a dois passos, a impediria talvez de dormir, se ela fosse mais nova. Às terças, pela manhã, o feirante nela encosta sua barraca, e ao entardecer, cada dia, garotos procuram subir-lhe o tronco. Nenhum desses incómodos lhe afeta a placidez de árvore madura e magra, que já viu muita chuva, muito cortejo de casamento, muitos enterros, e serve há longos anos à necessidade de sombra que têm os amantes de rua, e mesmo a outras precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes.

Todas estavam ainda verdes, mas essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom - cor final de decomposição, depois a qual as folhas caem. Pequenas amêndoas atestavam o seu esforço, e também elas se preparavam para ganhar coloração dourada e, por sua vez, completado o ciclo, tombar sobre o meio-fio, se não as colhe algum moleque apreciador do seu azedinho. E como o cronista lhe perguntasse - fala, amendoeira - por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:

- Não vês? Começo a outonear. É 21 de Março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono. Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações.

- E vais outoneando sozinha?

- Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.

- Somos todos assim.

- Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exatamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.

- Não me entristeças.

- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho."

Carlos Drummond de Andrade, 1957

* Fala, Amendoeira é uma reunião de crónicas de Carlos Drummond de Andrade, originalmente publicadas no jornal Correio da Manhã.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Viajar até Guimarães

Sentia a vida em círculos: a rotina, a roda da vida a me consumir, a me adoecer. Intimei todos a uma viagem, nem que fosse "ali", por nós. E fomos a Guimarães, conhecida como o Berço da Nação. Há muito que queria conhecer Guimarães; como imaginava, fiquei surpreendida com a beleza da região, a simpatia das pessoas e o estado de conservação dos monumentos, de visitas gratuitas. Guimarães está situada no Distrito de Braga, região Norte de Portugal, sendo o seu centro histórico considerado Património Cultural da Humanidade (UNESCO). Em 2012 foi nomeada Capital Europeia da Cultura. É um lugar a não deixar de visitar. 

Pontos de interesse:

Castelo de Guimarães
Castelo de Guimarães - Construído no século X e ampliado no século XII. Classificado em 1910 como património nacional. Possivelmente, foi o local onde nasceu o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques.

Capela de S. Miguel do Castelo
Capela de S. Miguel do Castelo - Igreja românica, situada entre o Castelo e o Paço dos Duques de Bragança. Local onde, possivelmente, D. Afonso Henriques foi batizado. O seu pavimento é lajeado por sepulturas de importantes guerreiros ligados a fundação da nacionalidade portuguesa. É monumento nacional desde 1910. 

Paço dos Duques
Salão dos Banquetes
Paço dos Duques - Construído no século XV pelo primeiro Duque de Bragança, abriga raras tapeçarias, peças de mobiliários renascentistas e tem o teto em forma de barco no Salão dos Banquetes. Está classificado como património nacional.

Museu de Alberto Sampaio
Museu de Alberto Sampaio - Foi criado em 1928 e abriga valiosas coleções de arte sacra, esculturas e azulejos do país. Situa-se no centro histórico, no local onde a condessa Momadona instalou um mosteiro (século X), cercado pelo claustro e salas medievais. Guarda o loudel que D. João I vestiu na Batalha de Aljubarrota.

  
Os Duques

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Convocatória: Educar para a igualdade e a não violência. Nosso silêncio nos faz cúmplices.

Está a decorrer em Lisboa, hoje e amanhã, a Conferência Internacional A Convenção de Istambul e os Crimes Sexuais, promovida pela APMJ - Associação Portuguesa de Mulheres Juristas, no âmbito da celebração do Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher (25 de Novembro).

Acabei de ouvir: 

"A prostituição não é a profissão mais antiga do mundo. A prostituição é a forma de violência sobre as mulheres mais antiga do mundo." (Dep. José Mendes Bota, Conselho da Europa)
"Se a nossa linguagem é masculina, a nossa imaginação é masculina." (Dra. Teresa Féria, Juíza Desembargadora)

E entre outras coisas importantes, falou-se sobre a nossa passividade diante da violência doméstica. Mesmo sem sermos agressores, saber que a violência vitima a nossa família, o nosso bairro ou a nossa casa vizinha, e nada fazer, também é uma forma de perpetuá-la. Falou-se sobre a importância de discutirmos o assunto, que deveria ser matéria imposta nos planos curriculares do ensino básico e secundário, tal como prevê a Convenção de Istambul, vinculativa para os Estados-membros signatários, inclusive Portugal. 

Por isso, se pelo menos as nossas escolas não abordam o assunto de forma obrigatória, como deveria, pensei que uma forma de minimizar a lacuna é discuti-lo em nossas casas, em prol de todos nós. Decidi que hoje, depois do jantar, vou reunir minha família para falarmos sobre a igualdade entre homens e mulheres, meninos e meninas, e a não violência entre nós. Convoco-os a fazerem o mesmo em casa: uma tertúlia sobre a igualdade e a paz. Terminamos com um desenho sobre aquilo que sentimos e partilhamos na nossa página do Facebook, o que acham?

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Dia de crescidas

Ainda assim, como conto tudo, para além de hoje ser o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, é um dia combativo e feliz, um dia a ser recordado também pelo feito de duas meninas crescidas.

ISA, mais referida por nós como "a prima", hoje deixou o hospital depois de 15 dias de internamento. Foram 15 dias angustiantes, sobressaltados por medos que nos tomaram a alma. Quis sair vestida de Branca de Neve, a pequena teimosa! E assim fez-se a sua vontade. 

Merecidamente.

EVA, a nossa pequena "Su", como é peculiar à personalidade já fincada apesar dos 3 anos que por vezes deixam a mãe aqui de cabelos em pé, ontem, para nossa surpresa, desconfiança e gargalhadas, decretou: - Já sou uma crescida. Hoje durmo sem dois bubus. Referia-se às duas chuchas que acompanham-lhe desde que nasceu. Sim, porque com a Su não bastava uma, tinha mesmo de ser duas! E assim fez-se a sua vontade.

Merecidamente, já agora, digo eu. Dormi uma noite santa, sem ter de levantar-me a procura de dois bubus.

Benditas meninas crescidas! :D

Violência contra as Mulheres? Basta!

25 de Novembro é assinalado como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres. Um dia para lembrar que:

  • 7 em cada 10 mulheres no mundo já foram ou serão violentadas em algum momento da vida (ONU);
  • O feminicídio é o assassinato intencional de mulheres apenas por serem mulheres (OMS);
  • Mais de 35% dos assassinatos de mulheres no mundo são cometidos por um parceiro íntimo (OMS e Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres).
  • Mais de 5 mil mulheres no mundo são mortas por ano por crime de honra (ONU);
  • 25 mil mulheres recém-casadas são mortas ou mutiladas a cada ano em razão de violência relacionada ao dote;
  • Mais de 100 milhões de meninas poderão ser vítimas de casamentos forçados nas próximas décadas (UNICEF);
  • Cerca de 6 mil mulheres por dia sofrem mutilação genital (ONU).

Basta de violência!

Fonte: Terra.  


domingo, 9 de novembro de 2014

Até logo!

Deve ter reparado que escrevo menos. Há dias em que passo, deixo uma nota, mas os textos estão escassos. Ainda assim, vou pincelando lá pela página do Facebook uns comentários, imagens, sentimentos mais imediatos. 

Ando triste. É que escrever para mim é uma necessidade. Acontece que a vida é um suceder de escolhas e a verdade, aquela que me persegue, é a constatação mais que evidente de que o tempo não dá para tudo. Tanto que brigo com o tempo! Rendi-me. 

Ando a dormir mal. A minha consciência me acorda a meio da noite. Sabe, a tese? É ela, boa parte da minha culpa vem dela. É ela que me assolapa o sono. Mas só quem a enfrenta sabe o quanto é viciante esse desafio e ao mesmo tempo tão medonho! A dada altura, é tão enfadonho, que é preciso encher-se de forças para enfrenta-la, dia após dia, no silêncio das respostas que procuramos. É tão fácil relega-la!  

Hoje, porém, uma das respostas veio a seguir a um desabafo com uma amiga. Ela, que há pouco tempo passou pelo mesmo e me entende bem, disse-me o que eu precisava ouvir. Disse-me que a tese deve ser encarada com base no lema dos alcoólicos anónimos: Um dia de cada vez. Sem pensar no que já deveria ter escrito, ir escrevendo, um-dia-de-cada-vez

E foi depois dessa conversa que decidi dizer "Até logo". Não era preciso, eu sei, mesmo porque possivelmente virei aqui, entre uma coisa e outra, como sempre desejei que fosse. Mas agora virei menos, por necessidade. Prometa que virá revisitar os posts antigos, pois enquanto for assim, manteremos esse cantinho vivo!? Com sorte, será um "Até logo-breve". Não despeço-me, vou dando notícias mais espaçadas. Não desista de, vez por outra, vir espreitar.     

O silêncio acompanha aqueles que, como eu, fazem da escrita o seu grito, o seu coração, a sua ferramenta... 

Até logo!       

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Versão aportuguesada do Bolo de Gengibre para o Halloween (Gingerbread man)

O Gingerbread (pão de especiarias) é uma espécie de bolo ou pão de mel e gengibre  muito próximo dos famosos biscoitos de gengibre com formato de bonecos, tradicionalmente utilizado para decorar árvores de Natal nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha.

Uma amiga partilhou comigo a receita e eu resolvi experimentar; mas na falta da forma com formato do boneco, improvisei com um urso. Para piorar, com a pressa desenformei mal o coitado do ursinho e de facto não ficou dos mais bonitos. Vamos combinar então que está assustador... ou a intenção não será surpreender a todos na noite de Halloween? Bem, ao menos já está fatiado! 

Ingredientes
- 100ml de leite morno
- 250g de mel
- 100g de manteiga líquida ou derretida
- 200g de farinha de trigo
- 1 colher de sopa de fermento
- 50g de açúcar mascavado ou amarelo
- 1 pitada de sal
- 1 colher de chá de gengibre moído
- 1 colher de chá de canela moída
- Nozes e amêndoas a gosto
 * A receita original leva ainda 50g de cravo mas dispensei.

Modo de fazer
1. Num recipiente, misture bem o leite morno e o mel. 2. Acrescente a manteiga  líquida e continue a misturar. 3. Incorpore ao resto dos ingredientes a farinha de trigo, o fermento, o açúcar e o ovo. 4. Junte uma pitada de sal, a gengibre e a canela moída, sempre misturando. 5. Por último, as nozes em pedaços. 6. Untar uma forma com manteiga e levar ao forno previamente aquecido, a temperatura de 180º, por cerca de 30 minutos.


Ok. Melhor partilhar o vídeo com a receita...


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Deixem as mães em paz

Imagem da Internet
Saudades de escrever, de contar aqui o que me vem no coração. Tem dias que sinto-me consumida pela vida, só apetece-me correr. E de vez em quando desligo: calço os ténis, ponho os auscultadores nos ouvidos e durante uma hora desligo. Desligo e penso, é verdade. Tomo decisões, esclareço. E penso. Numa dessas ocasiões pensei por que cargas d'água não deixam as mães em paz!   Sufocam-nos, não acha? Pior: umas mães sufocam as outras. Com as suas ideias testadas quase que com precisão científica, massacram umas às outras, uma legião de mulheres mais mães que outras, quase que a disputarem entre si o troféu de mãe do ano, do século, do universo. Outro dia uma leitora disse-me que sentiu-se como que excluída do "clube das mães" porque, veja lá, para além do leite materno, introduziu a fruta na dieta da bebé de 4 meses. Logo, uma enxurrada de comentários de devotas do aleitamento exclusivo. E quem foi que nunca ouviu dizer: "O bebé até o 6º mês tem de alimentar-se só do leite materno"; ou "Essa criança chora porque tem fome, o leite da mãe é fraco"; ou "Não dês colo sempre que o bebé chorar, vais habituá-lo mal, deixe-o chorar"; ou "Nunca leves o bebé para a tua cama ou ele só sairá de lá quando entrar para a faculdade"... Quando não embaralham o discurso todo tal como a sopa e o segundo prato. E eu cá a pensar: E se deixassem as pobres das mães em paz?

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Dia do Professor

Fonte: Internet
Sabia que no dia 15 de Outubro comemora-se no Brasil o Dia do Professor? O então Imperador D. Pedro I escolheu esta data em 1827, através do Decreto Imperial que criou o Ensino Elementar no Brasil. A escolha veio em função do dia consagrado pela Igreja Católica a Santa Teresa D'Ávila, reconhecida pela sua notável inteligência como Padroeira dos Professores.

A data foi oficializada como feriado escolar através do Decreto-Federal nº 52.682, de 14 de Outubro de 1963, e desde então os estabelecimentos de ensino promovem solenidades, enaltecendo as funções do Professor na sociedade.

Outros países também têm dedicado um dia ao Professor, em diferentes datas. Uma atitude sem dúvida a louvar mas que, nos dias atuais, exige mais do que um momento de recordação. Melhores condições de trabalho, respeito, reconhecimento e valorização profissional, ficavam bem, para começar.  

Desta forma, esta é uma pequena homenagem, com um dia de atraso mas em gesto de gratidão, a todos que dedicam a vida a semear o conhecimento em mentes pequenas e grandes.

Fonte: Hype Science.