quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Fala, Amendoeira*


"Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza - essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão - névoa baixa e seca, hostil aos aviões. Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes. Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino.

Essa árvore de certo modo incorporada aos bens pessoais, alguns fios elétricos lhe atravessam a fronde, sem que a molestem, e a luz crua do projetor, a dois passos, a impediria talvez de dormir, se ela fosse mais nova. Às terças, pela manhã, o feirante nela encosta sua barraca, e ao entardecer, cada dia, garotos procuram subir-lhe o tronco. Nenhum desses incómodos lhe afeta a placidez de árvore madura e magra, que já viu muita chuva, muito cortejo de casamento, muitos enterros, e serve há longos anos à necessidade de sombra que têm os amantes de rua, e mesmo a outras precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes.

Todas estavam ainda verdes, mas essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom - cor final de decomposição, depois a qual as folhas caem. Pequenas amêndoas atestavam o seu esforço, e também elas se preparavam para ganhar coloração dourada e, por sua vez, completado o ciclo, tombar sobre o meio-fio, se não as colhe algum moleque apreciador do seu azedinho. E como o cronista lhe perguntasse - fala, amendoeira - por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:

- Não vês? Começo a outonear. É 21 de Março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono. Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações.

- E vais outoneando sozinha?

- Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.

- Somos todos assim.

- Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exatamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.

- Não me entristeças.

- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho."

Carlos Drummond de Andrade, 1957

* Fala, Amendoeira é uma reunião de crónicas de Carlos Drummond de Andrade, originalmente publicadas no jornal Correio da Manhã.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Viajar até Guimarães

Sentia a vida em círculos: a rotina, a roda da vida a me consumir, a me adoecer. Intimei todos a uma viagem, nem que fosse "ali", por nós. E fomos a Guimarães, conhecida como o Berço da Nação. Há muito que queria conhecer Guimarães; como imaginava, fiquei surpreendida com a beleza da região, a simpatia das pessoas e o estado de conservação dos monumentos, de visitas gratuitas. Guimarães está situada no Distrito de Braga, região Norte de Portugal, sendo o seu centro histórico considerado Património Cultural da Humanidade (UNESCO). Em 2012 foi nomeada Capital Europeia da Cultura. É um lugar a não deixar de visitar. 

Pontos de interesse:

Castelo de Guimarães
Castelo de Guimarães - Construído no século X e ampliado no século XII. Classificado em 1910 como património nacional. Possivelmente, foi o local onde nasceu o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques.

Capela de S. Miguel do Castelo
Capela de S. Miguel do Castelo - Igreja românica, situada entre o Castelo e o Paço dos Duques de Bragança. Local onde, possivelmente, D. Afonso Henriques foi batizado. O seu pavimento é lajeado por sepulturas de importantes guerreiros ligados a fundação da nacionalidade portuguesa. É monumento nacional desde 1910. 

Paço dos Duques
Salão dos Banquetes
Paço dos Duques - Construído no século XV pelo primeiro Duque de Bragança, abriga raras tapeçarias, peças de mobiliários renascentistas e tem o teto em forma de barco no Salão dos Banquetes. Está classificado como património nacional.

Museu de Alberto Sampaio
Museu de Alberto Sampaio - Foi criado em 1928 e abriga valiosas coleções de arte sacra, esculturas e azulejos do país. Situa-se no centro histórico, no local onde a condessa Momadona instalou um mosteiro (século X), cercado pelo claustro e salas medievais. Guarda o loudel que D. João I vestiu na Batalha de Aljubarrota.

  
Os Duques

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Convocatória: Educar para a igualdade e a não violência. Nosso silêncio nos faz cúmplices.

Está a decorrer em Lisboa, hoje e amanhã, a Conferência Internacional A Convenção de Istambul e os Crimes Sexuais, promovida pela APMJ - Associação Portuguesa de Mulheres Juristas, no âmbito da celebração do Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher (25 de Novembro).

Acabei de ouvir: 

"A prostituição não é a profissão mais antiga do mundo. A prostituição é a forma de violência sobre as mulheres mais antiga do mundo." (Dep. José Mendes Bota, Conselho da Europa)
"Se a nossa linguagem é masculina, a nossa imaginação é masculina." (Dra. Teresa Féria, Juíza Desembargadora)

E entre outras coisas importantes, falou-se sobre a nossa passividade diante da violência doméstica. Mesmo sem sermos agressores, saber que a violência vitima a nossa família, o nosso bairro ou a nossa casa vizinha, e nada fazer, também é uma forma de perpetuá-la. Falou-se sobre a importância de discutirmos o assunto, que deveria ser matéria imposta nos planos curriculares do ensino básico e secundário, tal como prevê a Convenção de Istambul, vinculativa para os Estados-membros signatários, inclusive Portugal. 

Por isso, se pelo menos as nossas escolas não abordam o assunto de forma obrigatória, como deveria, pensei que uma forma de minimizar a lacuna é discuti-lo em nossas casas, em prol de todos nós. Decidi que hoje, depois do jantar, vou reunir minha família para falarmos sobre a igualdade entre homens e mulheres, meninos e meninas, e a não violência entre nós. Convoco-os a fazerem o mesmo em casa: uma tertúlia sobre a igualdade e a paz. Terminamos com um desenho sobre aquilo que sentimos e partilhamos na nossa página do Facebook, o que acham?

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Dia de crescidas

Ainda assim, como conto tudo, para além de hoje ser o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, é um dia combativo e feliz, um dia a ser recordado também pelo feito de duas meninas crescidas.

ISA, mais referida por nós como "a prima", hoje deixou o hospital depois de 15 dias de internamento. Foram 15 dias angustiantes, sobressaltados por medos que nos tomaram a alma. Quis sair vestida de Branca de Neve, a pequena teimosa! E assim fez-se a sua vontade. 

Merecidamente.

EVA, a nossa pequena "Su", como é peculiar à personalidade já fincada apesar dos 3 anos que por vezes deixam a mãe aqui de cabelos em pé, ontem, para nossa surpresa, desconfiança e gargalhadas, decretou: - Já sou uma crescida. Hoje durmo sem dois bubus. Referia-se às duas chuchas que acompanham-lhe desde que nasceu. Sim, porque com a Su não bastava uma, tinha mesmo de ser duas! E assim fez-se a sua vontade.

Merecidamente, já agora, digo eu. Dormi uma noite santa, sem ter de levantar-me a procura de dois bubus.

Benditas meninas crescidas! :D

Violência contra as Mulheres? Basta!

25 de Novembro é assinalado como o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres. Um dia para lembrar que:

  • 7 em cada 10 mulheres no mundo já foram ou serão violentadas em algum momento da vida (ONU);
  • O feminicídio é o assassinato intencional de mulheres apenas por serem mulheres (OMS);
  • Mais de 35% dos assassinatos de mulheres no mundo são cometidos por um parceiro íntimo (OMS e Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres).
  • Mais de 5 mil mulheres no mundo são mortas por ano por crime de honra (ONU);
  • 25 mil mulheres recém-casadas são mortas ou mutiladas a cada ano em razão de violência relacionada ao dote;
  • Mais de 100 milhões de meninas poderão ser vítimas de casamentos forçados nas próximas décadas (UNICEF);
  • Cerca de 6 mil mulheres por dia sofrem mutilação genital (ONU).

Basta de violência!

Fonte: Terra.  


domingo, 9 de novembro de 2014

Até logo!

Deve ter reparado que escrevo menos. Há dias em que passo, deixo uma nota, mas os textos estão escassos. Ainda assim, vou pincelando lá pela página do Facebook uns comentários, imagens, sentimentos mais imediatos. 

Ando triste. É que escrever para mim é uma necessidade. Acontece que a vida é um suceder de escolhas e a verdade, aquela que me persegue, é a constatação mais que evidente de que o tempo não dá para tudo. Tanto que brigo com o tempo! Rendi-me. 

Ando a dormir mal. A minha consciência me acorda a meio da noite. Sabe, a tese? É ela, boa parte da minha culpa vem dela. É ela que me assolapa o sono. Mas só quem a enfrenta sabe o quanto é viciante esse desafio e ao mesmo tempo tão medonho! A dada altura, é tão enfadonho, que é preciso encher-se de forças para enfrenta-la, dia após dia, no silêncio das respostas que procuramos. É tão fácil relega-la!  

Hoje, porém, uma das respostas veio a seguir a um desabafo com uma amiga. Ela, que há pouco tempo passou pelo mesmo e me entende bem, disse-me o que eu precisava ouvir. Disse-me que a tese deve ser encarada com base no lema dos alcoólicos anónimos: Um dia de cada vez. Sem pensar no que já deveria ter escrito, ir escrevendo, um-dia-de-cada-vez

E foi depois dessa conversa que decidi dizer "Até logo". Não era preciso, eu sei, mesmo porque possivelmente virei aqui, entre uma coisa e outra, como sempre desejei que fosse. Mas agora virei menos, por necessidade. Prometa que virá revisitar os posts antigos, pois enquanto for assim, manteremos esse cantinho vivo!? Com sorte, será um "Até logo-breve". Não despeço-me, vou dando notícias mais espaçadas. Não desista de, vez por outra, vir espreitar.     

O silêncio acompanha aqueles que, como eu, fazem da escrita o seu grito, o seu coração, a sua ferramenta... 

Até logo!       

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Versão aportuguesada do Bolo de Gengibre para o Halloween (Gingerbread man)

O Gingerbread (pão de especiarias) é uma espécie de bolo ou pão de mel e gengibre  muito próximo dos famosos biscoitos de gengibre com formato de bonecos, tradicionalmente utilizado para decorar árvores de Natal nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha.

Uma amiga partilhou comigo a receita e eu resolvi experimentar; mas na falta da forma com formato do boneco, improvisei com um urso. Para piorar, com a pressa desenformei mal o coitado do ursinho e de facto não ficou dos mais bonitos. Vamos combinar então que está assustador... ou a intenção não será surpreender a todos na noite de Halloween? Bem, ao menos já está fatiado! 

Ingredientes
- 100ml de leite morno
- 250g de mel
- 100g de manteiga líquida ou derretida
- 200g de farinha de trigo
- 1 colher de sopa de fermento
- 50g de açúcar mascavado ou amarelo
- 1 pitada de sal
- 1 colher de chá de gengibre moído
- 1 colher de chá de canela moída
- Nozes e amêndoas a gosto
 * A receita original leva ainda 50g de cravo mas dispensei.

Modo de fazer
1. Num recipiente, misture bem o leite morno e o mel. 2. Acrescente a manteiga  líquida e continue a misturar. 3. Incorpore ao resto dos ingredientes a farinha de trigo, o fermento, o açúcar e o ovo. 4. Junte uma pitada de sal, a gengibre e a canela moída, sempre misturando. 5. Por último, as nozes em pedaços. 6. Untar uma forma com manteiga e levar ao forno previamente aquecido, a temperatura de 180º, por cerca de 30 minutos.


Ok. Melhor partilhar o vídeo com a receita...