quinta-feira, 10 de julho de 2014

Perder, Ganhar, Viver (Drummond, por nós, 32 anos depois)

Foto: Pedro Bolle / USP Imagens
Em tempos de futebol e goleadas, ocorreu-me uma crónica do inesquecível poeta Carlos Drummond de Andrade, publicada em 7 de Julho de 1982, no Jornal do Brasil. Drummond era aficionado por futebol e escreveu inspirado na eliminação da seleção brasileira do Mundial de 82, depois de sofrer uma derrota por 3 a 2 para a Itália. O povo estava inconformado, um sentimento de frustração coletiva que só se viu antes com a perda do Mundial de 50 por 2 a 1 para o Uruguai. Nada, entretanto, comparável a recente eliminação da seleção brasileira do Mundial que decorre, por 7 a 1 para a Alemanha. Na verdade, Drummond, com a sua sensibilidade, chamava o povo à realidade, lembrava a todos que há vida para além do futebol... e que é preciso continuar. Lendo o texto do Drummond, não pude deixar de notar, 32 anos depois, que hoje passa-se exatamente o que Drummond viu em 82. Mas, sobretudo, vi nesta crónica,  claramente, a perceção de Drummond daquilo que suplanta o futebol. Mais do que de futebol, Drummond fala de perdas, de derrotas, de aprendizagens e de recomeços. Fala de vida, da vida que segue em frente e que realmente importa.   

Vamos, então, recordar Drummond, já que, ao que tudo parece, a história sempre se repete.
Perder, Ganhar, Viver
Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubada um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmulas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas...
Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade autuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.
Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.
Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.
E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade? 
Fonte: Blog Bola e Arte 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

quinta-feira, 3 de julho de 2014

A correr, a correr...


Queria mais horas no dia. Era mesmo capaz de reivindica-las, tipo numa manifestação de greve de fome. Mas se calhar ninguém me ouvia, ainda era castigada pela infâmia. Às vezes sinto-me improdutiva, que horror,  não consigo fazer o dia render. Logo vêm as amigas no mesmo estado e riem-se, dizem-me que só posso ser maluca, ainda meto-me em mais coisas, que disparate. Se calhar têm razão. Amuo, brigo, falo em divisão equânime, em conquistas, ameaço que vou fazer menos coisas. Não consigo. É que tenho medo do futuro, do futuro. Devo sofrer de uma síndrome qualquer. Ainda por cima, bati com a porta do carro em minha própria cara, tenho nódoas negras e os olhos a sumir de inchaço. No meio disso tudo quero correr, sinto falta de tempo para correr, oh céus, é o meu pedacinho de tempo. Pode dar-me só mais um pedacinho de tempo, se faz favor? Prometo que termino a escrita, abro um negócio e cuido de tudo o resto. Não que isto seja certo, nem concordo, mas ando a procura da balança. Devo tê-la avariada, perdida num canto da bagunça da garagem, o lugar das coisas descontinuadas. Maldita balança! É que os desafios me estimulam. Então, avanço ou perco tempo a tirar medidas? Não me parece que seja isto. Amanhã, amanhã eu corro... e na próxima semana, na próxima semana eu compenso o que estiver em atraso. Está prometido.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Paradise is here

Sabem, o paraíso? Existe. Fica por ali, entre Lagos e Sagres, na região do Algarve, Portugal. Tem a Ponta da Piedade (Lagos), "provavelmente a praia mais bonita do mundo", segundo o jornal americano Huffington Post. Não é bem uma praia, é mais uma combinação rochosa de cavernas e grutas - verdadeiramente difícil de olhar, de tanta beleza que se vê, como declara o Huffington Post. E tem também a Praia do Martinhal (Sagres), silenciosa como o céu. É lá que descansamos, refugiamos, esquecemos... é lá o nosso paraíso.






segunda-feira, 23 de junho de 2014

Cenas da Eva e outros cocós...

Para descontrair...

No pequeno-almoço só nosso:
- Mããããeeee... cala-te.
- Mas eu não tou falando nada, Evinha!
Ela, muito séria, abaixa a cabeça sobre a mesa, esconde-se e continua:
- Mããããeeee... fecha os olhos.
Ouço de lá um grunhido qualquer e já nem me atrevo a interromper...
- Mãe, fiz cocó.
- Já sabia, Eva. Foi por isso que você me mandou fechar os olhos? Como se eu não tivesse nariz! :(

É assim a minha Eva.

sábado, 21 de junho de 2014

Um presente lindo para uma pessoa linda

Nós, o blog e os Estúdios J.A.Santos, simplesmente adoramos proporcionar um presente que ficou tão lindo para uma pessoa linda...

Parabéns à amiga e leitora Rute Marques! O resultado do ensaio fotográfico ficou deslumbrante.



quinta-feira, 19 de junho de 2014

Mulher independente vs. Mulher para casar

Hoje acordei às 06h30. Quer dizer, acordaram-me! Já faz parte da minha rotina diária ser acordada uma, duas, três vezes durante a noite ou levantar-me bem antes do alarme soar. Em seguida, enquanto tiro uma das meninas da cama, passo-lhe protetor solar, visto-a, dou-lhe o pequeno almoço e despacho-a rápido para a escola; a outra berra pela "papa da mãããeee", faz cocó e a esta altura já eu me visto, tomo minhas vitaminas, lavo os dentes (de ambas), preparo-a para a deixar na escola... pego o saco do ginásio (se não der para ir hoje, irei amanhã!), do computador, mochila da pequena, chuchas (duas!), brinquedos... tudo mais ou menos ao mesmo tempo. Às 9h00 já estou na frutaria mais próxima do bairro, volto à casa, deixo um bilhete com orientações e às 10h00 supostamente começa o meu dia. Antes, atualizo-me, falo com colegas, ouço e desabafo, respondo e-mails, às vezes escrevo... e depois de facto começo a trabalhar. É mais ou menos assim mas se tivessem me dito que assim seria nos meus tempos de solteira, provavelmente eu riria alto e diria: - Impossível!

Fui uma mulher parecida com a Ruth Manus, de certo modo fui programada para ser independente. E, em tempos, já me orgulhei muito disto! Tenho hoje uma caixa cheia de sapatos de saltos muito altos, guardada. Já não são "funcionais" e dificultam-me a vida, quando não dão-me jeito se tenho de levar uma das crianças ao colo. É verdade que o marido às vezes solta uma de suas críticas pretensiosamente engraçadas, daquelas do género: "- Tás sempre com os calcanhares no chão..."; mas eu acho mesmo é que tenho os pés fincados no chão, sei onde o calo me dói. 

Depois, tem aquela questão do "próprio dinheiro", que rapidamente passa a ser o "dinheiro da família". Ainda assim, há de sobrar algum para as necessidades básicas de uma mulher... a bem da família. 

Também não ensinaram-me a cozinhar. Aprendi, ainda hoje aprendo. Sou adepta da "cozinha fácil e rápida" mas quando quero (preciso!) vou ao Google e saco receitas básicas, experimento e fico satisfeita. Além de impressões sobre assuntos e artigos científicos, troco com amigas receitas de culinária. E vem dando certo. 

Do que tenho mesmo pena é de não ter aprendido com a minha mãe a costurar (dava-me muito jeito nas festas das crianças!); no entanto sei pregar botões e fazer pequenos remendos, o que já não é mal. 

No mais, aprendi a trocar fraldas como ninguém, da mesma forma como aprendi sozinha a conduzir assim que comprei o meu primeiro carro (sei que a ordem não deveria ser essa mas eu era uma jovem de 24 anos independente demais!); sou capaz de lavar um carro se me apetecer e sei exatamente distinguir materiais de limpeza. Continuo a não gostar de ganhar eletrodomésticos de presente de aniversário e de ser questionada sobre o que faço com as horas do meu dia. Contudo, licenciei-me, empreguei-me, pós-graduei-me, viajei, tirei o mestrado, despedi-me e casei-me (as duas decisões mais difíceis da minha vida). Como seria expectável, recomecei. Hoje, enquanto vejo as minhas filhas crescerem, tiro o doutoramento. Diria: resquícios de "uma mulher que voa", criada para "encontrar a felicidade na liberdade e o pavor na submissão". Sobre isto, conservo os amigos (masculinos e do género) de antes, angario novos amigos e nunca nenhum deles desconsiderou a minha condição de "mulher casada". Bom que se diga que liberdade, amor e respeito combinam-se perfeitamente.

Claro que, fazendo parte de uma geração de mulheres criadas para serem independentes, também achei que não encaixava-me propriamente nos padrões desejados para casar. Sorte a minha ter encontrado um homem que pensava mais ou menos como eu - ou eu como ele! 

Do texto da Ruth Manus que li - A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem NÃO quer - e do que sou hoje, concluo que está enganado quem pensa que a independência é inconciliável com a vida conjugal e os filhos. A verdade é que, um dia, pode acontecer a qualquer uma de nós acordar e sentir-se demasiado só em meio a tanta independência; não falta-nos nada mas faltaria à vida um sentido maior do que reuniões e telemóveis a tocar - e isto não significa renunciar ao que somos. A verdade é que mudamos... ou amadurecemos... como preferirem. Focamo-nos em outros objetivos antes impensáveis. E o amor, junto com os filhos, vêm para nos ensinar que tudo é negociável, que tudo é relativo, que as prioridades mudam ou deixam de ter a importância que antes tinham ou, ainda, que somos capazes de mais. Portanto, não tenham medo! Mas se sentirem-se confortáveis, podem dizer que mulheres independentes também acumulam funções de "mulher de família" ou quiçá reformam-se! Só mais uma coisinha: é mentira que não somos frágeis.
"O fato é: quem foi educado para nos querer? Quem é seguro o bastante para amar uma mulher que voa? Quem está disposto a nos fazer querer pousar ao seu lado no fim do dia? Quem entende que deitar no seu peito é nossa forma de pedir colo? E que às vezes nós vamos precisar do seu colo e às vezes só vamos querer companhia pra um vinho? Que somos a geração da parceria e não da dependência?" (trecho transcrito do texto da Ruth Manus, ao qual me refiro). 
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