quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Saudade

Há um dia para tudo e um dia inteirinho dedicado à saudade, essa palavra de origem latina - solitassolitatis - que, etimologicamente, significa "solidão". A língua portuguesa apoderou-se dela. Dizem que vem dos descobrimentos, da sua tradição marítima portuguesa, quando era utilizada para definir a melancolia causada pela ausência ou lembrança dos entes queridos. Sentimento que tão bem conheço!

Saudade é: 1. Lembrança grata de pessoa ausente ou de alguma coisa de que alguém se vê privado. 2. Pesar, mágoa que essa privação causa.

Há saudade cantada, recitada; saudade falada, escrita, calada; saudade guardada, armazenada, reciclada. Há saudade matada, saudade até esquecida! Há saudade que aperta, saudade que inspira, saudade que dói, saudade escondida... Há saudade que não deixa saudade. Há tanta saudade, aqui e ali, há saudade por todo o lado... E ainda bem que há saudade!


SAUDADE

na solidão na penumbra do amanhecer.
Via você na noite, nas estrelas, nos planetas,
nos mares, no brilho do sol e no anoitecer.

Via você no ontem, no hoje, no amanhã...
Mas não via você no momento.

Que saudade...

(Mario Quintana)

Estado de espírito


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Justin Bieber


Criaram-lhe mal, fizeram-lhe acreditar que era grande. Cercaram-lhe de vontades, deram-lhe um ego gigante. Sem tempo de ser criança, brincou com brinquedos de gente grande. Cedo envelheceu, aos 19 anos anunciou a sua reforma. De estrela pop, passou a "perigoso, insensato, destrutivo e consumidor de drogas", uma ameaça para a segurança do povo e má influência para os jovens. Agora, mais de 100 mil americanos exigem a sua deportação e revogação da autorização de residência. Querem pôr o menino de castigo. Oxalá ainda vão a tempo!     

Quando me perco!

Às vezes perco o sono. Repasso o dia, infinitas vezes, em meus pensamentos. E perco o sono. Apavoram-me fantasmas, não do passado mas do futuro. Apavora-me o papel em branco, a tela vazia, as horas perdidas, as palavras desaparecidas. Apavora-me a exclusão, o escuro, o obscuro. Apavora-me não saber ou mesmo saber tão pouco quando era suposto saber tanto! 

Quando sinto-me assim gosto de ouvir no carro algum tipo de música calma, que é quando basicamente o faço! Acredito que as canções podem ser formas do universo comunicar, dizer-nos coisas através da sensibilidade de algumas pessoas, que entretanto também se perdem! Bem, quando não piora a minha melancolia geminiana, deixa-me serena. Hoje ouvi o Luís Represas, um dos meus portugueses favoritos. E cantou-me isto. E eu senti que era mesmo isto. E soube-me bem!


Quando me perco
busco um abrigo
ou um tecto que não tolha os meus sentidos 
E se o teu céu, por ser maior,
cobrir o pranto?
eu vou!

Quando me perco
sigo uma estrela 
que não brilha igual
em todo o firmamento.
E se cair para lá das ilhas encantadas?
eu vou!

Se o teu nome não fosse 
o do pecado,
ou da benção que o céu 
hoje me deu,
nem por montes,
nem por mares
onde o sol nunca nasceu,
perderia o rasto
de um sorriso teu!

Quando me perco
sigo uma voz
que me chama bem do fundo 
das certezas.
Mesmo que chegue 
como um canto de sereia?
eu vou!

Quando me perco
ou se me encontro,
ou se me der para ser banal 
tal como agora,
tudo não passa 
da vontade de dizer?
eu estou!    

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O Rui Pedro e a Filomena que há em nós


Tal como muitas pessoas que hoje partilham esse vídeo, não conheci de perto o Rui Pedro, nem a Filomena, nem a sua família. Mas assim como tantos outros, é-me de todo impossível ficar indiferente ao sofrimento dessa mãe e de sua família. Não há, ao menos em Portugal, ninguém que nunca tenha ouvido falar no Rui Pedro ou que não se comova ao ver o rosto, cansado e triste, morto-vivo, da Filomena Teixeira. A Filomena procura pelo seu filho há 16 anos. Não sabe ao certo o que lhe aconteceu; mas não desiste. Eu também não desistiria.

Estava grávida da Malu quando acompanhei pela imprensa a história mediática do desaparecimento da Madeleine McCann. Aquilo mexeu comigo! Lia tudo o que encontrava sobre o caso, desde recortes de jornais a revistas e livros. E sinceramente, não acredito que os pais possam estar por trás do seu sumiço. Seja como for, a Kate McCann não desiste de encontrar a sua filha. Eu também não desistiria.

Desde que sou mãe, que pus cá para esse mundo cruel e colorido uma extensão de mim, sou perseguida pelo medo, o pavor, de tirarem-me uma de minhas filhas. Vigio-as nos supermercados, nos centros comerciais, nos parques infantis, nas praias... nunca, nunca as perco de vista. Mesmo em casa, mantenho a porta trancada a chave, com receio de que alguma desça pelo elevador e desapareça. É uma fobia! Mas sou da geração de Filomenas e Kates e, vendo-as vaguear entre tribunais e suplícios, imagino a dor de não saber de um filho, de vê-lo acordar e já não dormir com ele. 

É por isso que hoje, no 27º aniversário do Rui Pedro, partilho igualmente a dor da Filomena e o seu apelo. Vejo-me nela e, nesta condição, sinto que hoje a Filomena é um pouco de todos nós e o Rui Pedro um pouco filho de todos nós. Partilho-o, porque eu também não desistiria. Não. Enquanto vivesse, enquanto não o encontrasse, enquanto não soubesse o que verdadeiramente lhe aconteceu, eu não desistiria.

O vídeo tem cerca de 1 minuto. Partilhem-no. É o melhor presente que hoje podemos oferecer ao Rui Pedro. E à Filomena. E ao Rui Pedro e à Filomena que há em nós.            

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Mérida: Viajar é preciso!

E por falar em Espanha, já tiveram oportunidade de conhecer Mérida? Acho que é um roteiro obrigatório para quem gosta de história ou de viajar com um cunho cultural ou, ainda, para quem tem filhos em idade escolar. Mérida é cidade capital da comunidade autónoma da Estremadura e faz fronteira com Portugal, situando-se nas imediações de Elvas (Portugal) e Badajoz (Espanha). 

Optamos por nos hospedar em Elvas, num antigo Convento convertido no Hotel São João de Deus, com diária em torno dos €55,00. Assim pudemos dividir o fim de semana entre Elvas e Mérida, ambas Património Histórico da Humanidade.

Elvas (distrito de Portalegre, Alto Alentejo) destaca-se pelo centro histórico e pelas suas famosas muralhas em formato de estrela, consideradas as maiores fortificações abaluartadas do mundo e cujo perímetro vai dos 8 aos 10 Km. Elvas foi a cidade mais fortificada da Europa, a mais importante praça-forte da fronteira portuguesa. 

Mérida, por sua vez, destaca-se pelas ruínas romanas que constituem um dos principais e mais extensos conjuntos arqueológicos de Espanha. Foi fundada em 25 a.C. com o nome de Emerita Augusta, sendo uma das mais importantes cidades da Península Ibérica durante a ocupação romana. As ruínas espalham-se um pouco por toda a cidade, de modo que é um passeio que faz todo o sentido fazer-se à pé, já que, volta e meia, nos deparamos com um monumento histórico. 

Como há muitos pontos turísticos para visitar, optamos por escolher aquilo que nos parecia mais interessante. Compramos um bilhete (ao custo de €12,00 por adulto; criança até 11 anos não paga) que nos permitiu visitar em conjunto o Teatro e o Anfiteatro (Coliseu) romanos, antigos palcos de espetáculos, lutas entre gladiadores, jogos e prática de ginástica. De lá, seguimos para o centro de Mérida e em meio às suas ruelas fomos literalmente surpreendidos pelo Templo de Diana, uma obra majestosa que nos reporta ao tempo do império e à Grécia antiga. 
    
O conjunto arqueológico de Mérida está em muito bom estado de conservação, de modo que saímos de lá com uma impressão bastante realista da época. Foi um fim de semana muito bem passado, fez-nos muito bem sair um pouco de casa e nem é preciso dizer que as crianças adoraram, desde a dormirem num hotel até a curiosidade natural, sobretudo da de 6 anos, de estarem em outro país (mesmo que ali logo ao lado!), ouvirem outra língua e visitarem a cidade da Princesa Mérida da Disney. Quando voltamos, recordamos o passeio assistindo ao filme Gladiador e até hoje a viagem é tema de conversa entre nós! 

Por tudo isto, só posso dizer que vale muito, muito à pena programar este passeio com a família. Para mais informações consultem o site Turismo de Mérida, aqui.







        

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A decifrar «Vaca Profana»

Às vezes, em meus desabafos, confesso que uma de minhas frustrações é não cantar e tocar violão. Até canto, mas com certeza não lotaria o Maracanã! Ou melhor: para ser mais realista, não lotaria o "Concerto mais Pequeno do Mundo" da Rádio Comercial. Mas adoro cantar e canto! Ainda por cima sou inconveniente, canto alto, sobreponho-me ao som original. Pronto, sou uma chata!

Digo isto porque, precisamente no domingo, estávamos nós a ouvir o DVD maravilhoso do Caetano Veloso e da Maria Gadú, quando apaixonei-me pela canção «Vaca Profana» como se estivesse ouvindo-a pela primeira vez. Pus-me então a cantar... e até hoje canto... o que levou-me a querer saber mais sobre a sua letra truncada, fascinante, que arranca já com uma frase tão aguda quanto um soco no estômago: "Respeito muito minhas lágrimas/Mas ainda mais minha risada"; do gênero: valorizo todos os meus momentos difíceis mas valorizo ainda mais o que me faz feliz. Uma sabedoria assim, tinha de vir do meu amado e lindo Caetano!

«Vaca Profana» foi lançada em 1984 e composta para Gal Costa, sendo considerada uma verdadeira ode à Espanha, especialmente à Catalunha. Tem uma poesia belíssima mas de difícil interpretação, que retrata os movimentos artísticos em voga na altura. Nessa canção, Caetano começa por exaltar a necessidade de viver acima das pessoas comuns, daquilo que é considerado normal ("Vaca profana põe teus cornos/Pra fora e acima da manada"). Não se identifica com o senso comum, com a normalidade da vida e mesmo quando confessa à sua irmã a vontade de encontrar o amor, ressalva que não o vê de forma convencional; antes pelo contrário, pretende-o excêntrico, ao estilo Thelonious Monk ("Quero que pinte um amor Bethânia/Stevie Wonder, andaluz/Como o que tive em Tel Aviv/Perto do mar, longe da Cruz/Mas em composição cubista/Meu mundo Thelonius Monk's blues"). O próprio título da canção é uma provocação de Caetano a tudo aquilo que massivamente se julga sagrado. Entretanto, avesso ao que até então critica, talvez mais amadurecido ou como resultado de um demorado processo de autoconhecimento, Caetano acaba por reconhecer que muitas vezes ele próprio age consoante as pessoas "caretas" que tanto censura ao longo da canção ("Mas eu também sei ser careta/De perto ninguém é normal"). Por fim, de forma absolutamente magistral, despe-se da arrogância e, humildemente, compadece-se, por ele e pelos outros ("Gotas de leite bom na minha cara/Chuva do mesmo bom sobre os caretas").

É, sem dúvida, uma canção que reflete bem um percurso de crescimento pessoal do Caetano veloso. Convido-os, todos, a lerem a letra com atenção e cantarem comigo «Vaca Profana».


VACA PROFANA (Caetano Veloso)

Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada 
Inscrevo, assim, minhas palavras 
Na voz de uma mulher sagrada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da man...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Dona das divinas tetas
Derrama o leite bom na minha cara
E o leite mau na cara dos caretas
Segue a "movida Madrileña"
Também te mata Barcelona
Napoli, Pino, Pi, Paus, Punks
Picassos movem-se por Londres
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horizonte
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horiz...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Vaca de divinas tetas
La leche buena toda en mi garganta
La mala leche para los "puretas"
Quero que pinte um amor Bethânia
Stevie Wonder, andaluz
Como o que tive em Tel Aviv
Perto do mar, longe da cruz
Mas em composição cubista
Meu mundo Thelonius Monk`s blues
Mas em composição cubista
Meu mundo Thelonius Monk`s...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Vaca das divinas tetas
Teu bom só para o oco, minha falta
E o resto inunde as almas dos caretas
Sou tímido e espalhafatoso
Torre traçada por Gaudi
São Paulo é como o mundo todo
No mundo, um grande amor perdi
Caretas de Paris e New York
Sem mágoas, estamos aí
Caretas de Paris e New York
Sem mágoas estamos a...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Dona das divinas tetas
Quero teu leite todo em minha alma
Nada de leite mau para os caretas
Mas eu também sei ser careta
De perto, ninguém é normal
Às vezes, segue em linha reta
A vida, que é "meu bem, meu mal"
No mais, as "ramblas" do planeta
"Orchta de chufa, si us plau"
No mais, as "ramblas" do planeta
"Orchta de chufa, si us...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Deusa de assombrosas tetas
Gotas de leite bom na minha cara
Chuva do mesmo bom sobre os caretas...