quarta-feira, 10 de julho de 2013

O marido fez anos e decretamos feriado!

Ontem folguei, quero dizer, folgamos! Deixamos as meninas e tiramos o dia só para nós os dois. É que foi aniversário do marido e nós fugimos, escondemo-nos, como fazem as crianças traquinas. E soube muito bem! Apesar dos anos terem trazido algumas rugas e cabelos brancos (só no marido!), continuamos achando graça um do outro, brincamos e adoramos estar juntos... O que é isto, senão o amor?
 
Parabéns para ti, marido! E para nós, que temos a ti!
 


 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A minha pequena e tímida bailarina!

Vamos falar de coisas amenas! Estou cheia de orgulho da minha primogénita, um orgulho que não cabe neste post! E por duas razões:
 
Arrancar um sorriso da Malu tanto pode ser uma coisa fácil como a mais difícil do mundo. A Maluzinha, não parece, mas é uma criança tímida. Levei algum tempo para perceber isto e confundia a sua relutância em cumprimentar as pessoas como má-educação, até que um dia ela me explicou: "Mas mamãe, eu fico roca, a minha voz não sai!". Também a Educadora concluiu, na Grelha de Observação dos 5 anos: "A Malu expressa-se oralmente de forma adequada à sua idade. Revela alguma dificuldade em colocar as suas dúvidas e questões devido à sua timidez". Passei a dizer-lhe que ela não tem que desenvolver a conversa, mas apenas responder quando alguém lhe dirige a palavra. Ser tímida é diferente de ser mal-educada. Não sei se ela entendeu muito bem!
 
Em todo o caso, ontem a Malu rompeu com a sua timidez e se apresentou para a plateia lotada do Teatro Tivoli, naquele que foi o seu primeiro espetáculo de ballet e os seus primeiros 10 minutos de fama. A Maluzinha não sorriu, mas não importa, foi uma corajosa e linda bailarina! Mesmo assim, lá largou uma das suas: "Mamãe, eu só vou fazer ballet até aos 7 anos. Depois, quero ir para a ginástica acrobática". Enfim, talvez este tenha sido o primeiro e o penúltimo espetáculo de ballet da Malu!
 
Outro motivo que me deixa muito feliz é o fato da Maluzinha ter uma "amiga preferida". A sua amizade com a Mariana já dura 2 anos, ou seja, quase metade da vida de ambas, e é admirável como elas se gostam, são leais uma com a outra, sentem saudades e necessidade de estarem juntas. Por conta delas, eu e a mãe da Mariana, a Paula Fragata, também nos tornamos grandes amigas. E claro que a Marianinha foi prestigiar sua amiga preferida, realizando depois mais um dos sonhos da Malu, que era trazer uma amiga para dormir à casa! Emocionou-me a alegria da Malu e a sua sincera gratidão ao murmurar: "Obrigada, Paula!". Ainda assim, sentindo que deveria retribuir a gentileza, já advertiu: "Mas eu só vou dormir na casa da Mariana quando eu tiver 6 anos!". Sim, porque com 6, já vai estar suficientemente crescida a minha pequena e tímida bailarina!
 
  

 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Notícias de além mar!

No passado dia 2, recebi um e-mail de uma amiga querida, dando-me notícias do Brasil. Dizia assim:
"Oi Nubinha,
E aí, como está? Espero que em paz e com saúde... Já viu como está nosso país? Um caos, o povo nas ruas, bombas de gás lacrimogênio, tiros de borracha e depredações. Hoje várias estradas foram fechadas. Para completar Dilma insiste em plebiscito. Acabou de enviar mensagem ao Congresso. Sei não! Será que caminhamos para uma segunda Venezuela, Bolívia ou mesmo Argentina? Ainda há pouco o Jornal falava sobre a queda da produção industrial pelo quarto mês consecutivo. A inflação começa a aparecer novamente, mesmo de forma discreta. A coisa tá ficando complicada. Como dizem os cartazes nas ruas: 'O povo acordou'.
E as nossas lindas meninas? Beijos nelas. Diga a Lu, que mando um 'abraço apertado, um sorriso dobrado e um amor sem fim'".
E pensei: "Logo agora que estamos consensualmente de olho no lado de lá!". Respondi-lhe rapidamente, mais ou menos assim: 
"... Não sei, mas estamos naquela 'se correr o bicho pega, se ficar o bicho come'. Porque aqui a situação do país não é melhor. O Governo tá caindo, Ministros se demitindo, querem eleições antecipadas, o povo nas ruas, o caos também... Acho melhor irmos para a China!".

Claro que brinquei com a situação! Mas depois fui pensar melhor no assunto, que por sinal não tem graça nenhuma! Eu devo primeiramente esclarecer que a minha amiga é assumidamente de "Centro mais para a Direita" (se é que isto é possível!) e, como é óbvio, nunca simpatizou com nenhum Governo inclinado a posições "esquerdistas". E devo também dizer que eu, ao contrário, a dada altura da minha vida tornei-me defensora das causas sociais mais populares, do tipo "cara pintada" ou "Centro mais para a Esquerda" (se é que isto é possível!).

Não foi sempre assim, visto que fui educada por um pai trabalhador mas que “subiu de classe”, razão suficiente para que, sem nenhuma noção coerente de política, passasse a “preferir” os ideais favoráveis à sua condição de empregador. Talvez este upgrade em minha vida coincida com o meu ingresso na Faculdade de Direito e com o fato de ter amigos das mais diversas fações, o que contribuiu para que eu elaborasse algum esclarecimento sociopolítico, desapegado do que era suposto ser bom só para o “meu umbigo”.

Nasci e cresci num Brasil lutando pela democracia (e afirmando-se como tal), numa época em que, ilusoriamente, os juros da inflação davam rendimento a quem tinha "dinheiro aplicado". Daí porque lembro-me perfeitamente de ouvir o meu pai passar a vida a dizer: “No tempo de Figueiredo é que era bom!”, referindo-se a João Baptista Figueiredo, o último Presidente da ditadura militar brasileira. Não me envergonho de vos contar isto, o meu pai certamente não sabia o que dizia! Provavelmente, do seu lugar “confortável” nos confins do interior da Bahia, sequer se apercebia dos atos de terrorismo e da crescente dívida externa que pela primeira vez levou o Brasil a recorrer ao FMI (Fundo Monetário Internacional).

Em verdade, era a forma desorganizada que o meu pai expressava o seu medo e desesperança diante da crise económica que nos abatia precisamente nas décadas de 80 e 90. Atentem que nós éramos uma família que vivia sobretudo da agropecuária, conseguida pelas mãos calejadas do meu pai trabalhador e pseudo-cacauicultor (o que lhe concedia algum status!), sendo portanto compreensivo que praguejasse contra quem, bem no meio da crise regional cacaueira (os preços do produto despencaram e a lavoura foi devastada pela praga da vassoura-de-bruxa), resolveu confiscar os depósitos bancários dos brasileiros visando conter a espiral inflacionária. Fernando Collor de Mello deve ser na História do Brasil o Presidente com a alma mais vezes encomendada ao Diabo!

Tudo isto para vos dizer que eu não sei o que é viver num país senão em crise. Quando o Brasil começou a sua ascensão económica, eu já cá estava, em Portugal, cuja economia indicia-se em queda vertiginosa, geradora do mesmo terror, mesma desesperança e mesmo caos que me é tão familiar! Não sei se serve como indicador, mas eu cresci, estudei, formei-me, empreguei-me, poupei e comprei o meu primeiro automóvel e a minha primeira casa num país em crise. O que desejo para o futuro de minhas filhas? Que elas cresçam, estudem, formem-se, empreguem-se e aprendam a poupar num país em crise ou não.

Decerto nós somos governados, mas no nosso metro quadrado quem governa somos nós. Somos nós quem decidimos de que lado vamos estar: se do lado de quem luta ou de quem entrega as armas; se do lado de quem espera ou de quem abre o caminho. Sem ter a exata noção disto, muito cedo fui forçada a abrir o meu próprio caminho, era inquieta demais para ficar a espera que os ventos me soprassem!

Com ironia ou não, nunca antes foi tão legível e tão invocado o acordo, expresso ou tácito, que considera Portugal e Brasil dois países irmãos. Diria eu, no meu baianês refinado, que nós somos mesmo é “farinha do mesmo saco”, temos o mesmo ADN (DNA). Portanto, meus caros irmãos portugueses, falando do alto da minha experiência própria e sem nenhum princípio económico sustentável (porque de fato não o tenho, a não ser o aprendido rudemente de forma quase doméstica), a crise deve ser mesmo encarada como uma coisa que sufoca, que tira-nos o sono, rouba-nos o emprego, mata-nos o cão e saqueia-nos a casa. Contudo, nós ainda assim podemos conviver com ela, respeitando-a, sem entretanto nunca nos darmos por vencidos. A crise, no fundo, deve servir para aguçar o nosso engenho. E acho que foi isto, este ensinamento, que de mais valioso e importante o meu pai me deixou! 

Coincidências à parte, deixo-vos com a canção “Meu Caro Amigo”, de Chico Buarque. Para quem não sabe, foi uma carta-cassete que Chico Buarque e Francis Hime gravaram como forma de passar pela censura da ditadura e enviaram para o amigo Augusto Boal, que se encontrava exilado em Lisboa, mandando-lhe notícias do Brasil. Tantos anos passados, caiu como uma luva na versão moderna recriada pelo e-mail de minha amiga. Salve Chico! Ninguém, melhor do que ele, sabe falar de nós!
 
  

terça-feira, 2 de julho de 2013

Campanha Coração Azul contra o tráfico de seres humanos: Essa luta é nossa!

Deixei aqui umas notas sobre o tráfico de pessoas para fins sexuais, uma das modalidades mais rentáveis no mercado mundial do crime organizado e que vem movimentando cerca de US$ 9bilhões por ano (no total de cerca de US$ 32bilhões do mercado ilícito do tráfico de pessoas - UNODC 2005).

Achei importante comentar o assunto, tanto mais sendo o Brasil o país da América do Sul campeão no tráfico de mulheres para a escravidão sexual, como também pela crescente emigração dos portugueses. Mulheres e meninas representam, no mundo todo, 80% das vítimas, sendo o tráfico de crianças responsável por 15 a 20% das vítimas detetadas (UNODC 2009).

A verdade é que a escravidão humana, pese embora historicamente abolida, até hoje perdura sob diversas formas. E pelo mundo todo. Foi por isto lançada uma campanha internacional pela UNODC (United Nations Office on Drugs and Crime) contra o tráfico de seres humanos, a vertente moderna da escravidão, objetivando a conscientização para a luta contra o tráfico de pessoas e seu impacto na sociedade. A Campanha Coração Azul está aberta a todas as pessoas que queiram "vestir" o Coração Azul como símbolo da tristeza das vítimas e de seu apoio à essa luta. Basta fazer o download do logos, aqui

Brasil e Portugal também aderiram à Campanha Coração Azul. A cantora Ivete Sangalo é a Embaixadora da campanha brasileira, com o slogan "Liberdade não se compra. Dignidade não se vende". Confiram o Making Off e o vídeo institucional com a cantora, aqui e aqui. Em Portugal, a campanha foi lançada com o vídeo que se pode ver aqui.

Vamos todos participar ativamente dessa campanha, divulgando e encorajando a luta contra o tráfico de pessoas.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Desapareci, mas não morri!

Não, não morri! Foi só uma espécie de "morte virtual" quase anunciada, saí do "ar", desapareci forçadamente por uns dias... intermináveis dias! Ser mãe tem dessas coisas! É que nós, para além de todos os nossos papéis sociais, pessoais e profissionais, "também" somos mães. Ou será exatamente o contrário: somos mães e "também" desempenhamos outros papéis? Não sei, esta é uma luta que travo diariamente comigo!
 
Mas seja de que modo for, a minha ausência veio na sequencia de uma gastroenterite que a Malu trouxe para casa, seguida de uma conjuntivite viral com outra bacteriana por cima, que descambaram em  consultas, urgências pediátricas e oftálmicas. Salvamo-nos todos, mas a "mãe" termina com um esgotamento assimilado como um processo não criativo (para além de apanhar os "bichos" todos!).
 
Eu tenho uns "comas", no linguajar do marido! Não sou de todo hiperativa, aliás, uma das coisas de que mais sinto falta é de esticar-me numa toalha de praia, virar para um lado, para o outro, ler uma revista "cor-de-rosa", sem me levantar para absolutamente nada: nem apanhar baldinhos, nem catar conchinhas, nem assistir a piruetas felizes, nem correr para o mar, nada, nada mesmo. Mas quando me sinto obrigada a ficar em casa, ao invés de aproveitar para dormir a sesta, por exemplo, dou para arrumar armários. Começo pelos roupeiros e vou até a casa de bonecas do terraço.
 
Deve ser uma espécie de loucura, mas é assim que organizo minhas ideias. É incrível, mas enquanto seleciono coisas - separo as que tenho para dar daquelas que vão para o lixo - a minha cabeça pensante descansa e eu reoriento-me por dentro. E riu imenso das pegadas que as meninas vão deixando pela casa, da personalidade que elas vão desenhando pelos quatro cantos! A Malu tem se revelado uma exímia recicladora, guarda tudo, desde rolos de papel higiénico a caixas vazias de ice tea (para o desespero da mãe compulsiva por limpeza!), que "é para fazer criativas", segundo explica. E por onde a Eva passa, deixa um rastro de DVDs partidos, chinelos perdidos e um banquinho pelo meio, que é para atingir os lugares onde a sua pequenez não alcança.
 
Nessas horas, apraz-me sentir que somos uma família e que funcionamos dentro das condições que nos são impostas, cada um de nós desempenhando o seu papel da melhor forma que sabemos (e conseguimos!). Há renúncias, sem dúvida, umas mais que outras. Há cansaços, angústias, tarefas mal divididas e perguntas que não se calam, livros que não acabamos de ler, textos não concluídos, viagens que não fizemos, peças e filmes que não assistimos, mas por outro lado há uma alegria genuína estampada nas nossas fotografias, que revela o nosso melhor, o que temos de mais terno e nos mantém unidos.
 
Talvez só quem tenha experimentado a solidão rodeada de pessoas compreende ao certo esse meu sentimento! Tudo pode esperar, todos os projetos são adiáveis e realizados no último dia do prazo, impreterivelmente, exceto quando é a "mãe" quem tem de atuar. A "mãe" está sempre pronta e sobressalta ao primeiro chamamento!

Quanto a nós, prometo que esta semana termino de arrumar os armários e que se tudo correr bem, não tardo mais! É que também já sentia saudades de vos escrever!

segunda-feira, 24 de junho de 2013

É Dia de São João e de Bolo de Fubá de Milho tipicamente do Nordeste brasileiro!

Só quem é do Nordeste do Brasil consegue imaginar de que tamanho fica o meu coração nesta época do ano, a saudade que sinto de aquecer o corpo ao pé de uma fogueira, assar milho, comer amendoim cozido, canjica, bolo de milho, docinhos de jenipapo e beber licor de todos os sabores: jenipapo, jabuticaba, mel de cacau... depois dançar quadrilha, encontrar os amigos que chegam de todas as bandas, festejar! É São João!
 
Os amigos de Portugal devem estar a se perguntar: "Mas isso não se parece nada com o São João do Porto!". Têm razão! Embora as festas juninas - Santo António (13-06), São João (24-06) e São Pedro (29-06) tenham sido introduzidas no Brasil pelos portugueses, com o passar dos anos ganharam outras características, abrasileiraram-se! E como Junho é o mês de colheita da safra do milho, este cereal está presente na maioria das comidas típicas desta festa, como bolos, mingaus (caldos), milhos cozido ou assado, pamonhas, canjicas, dentre outras. Portanto, nada parecido com as sardinhas, caldos verde, broas, pimentos e vinhos dos nossos colonizadores!
 
Nestas ocasiões, é de todo impossível conter as minhas origens, de modo que hoje à noite vamos ouvir forró lá em casa e comer o Bolo de Fubá de Milho que preparei para minimizar a minha saudade. Vou reunir todos na sala e recontar às meninas e ao marido as minhas memórias (dão com isto todos os anos!), cantar e dançar quadrilha, vamos nos divertir mesmo com a conjuntivite viral que nos assola e já dura uma semana. Ah! Um dia ainda os levo a verem de perto o meu São João!
 
Mas por ora, partilho a minha receita de Bolo de Fubá de Milho, como tradicionalmente é feito no Nordeste brasileiro. Sei que vocês vão adorar! Tal como os outros que já postei aqui, também este bolo é muito fácil de preparar, rápido e de poucos ingredientes. Além do mais, é delicioso, fica muito fofinho e acompanha divinamente o cafezinho no fim da tarde. Então, viva São João, meus amigos!
 
Ingredientes
2 chávenas (xícaras)* de fubá ou farinha de milho
1 chávena (xícara) de farinha de trigo
1 chávena (xícara) de óleo ou manteiga
1 chávena (xícara) de leite
1 chávena (xícara) de leite de côco
1 chávena (xícara) de açúcar
1 pitada de sal
3 ovos
1 colher de sopa de fermento

*A medida é mais ou menos 200ml
 
Modo de fazer
Misturar ou bater todos os ingredientes no liquidificar, a exceção do fermento, que é incorporado por último e ligeiramente misturado. Colocar em forma untada com manteiga e polvilhada com farinha de trigo. Levar ao forno pré-aquecido, a mais ou menos 180º. Assa em mais ou menos 40 minutos.
 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Eutanásia e outros conceitos: A Ética e o Direito no final da vida

Nos temas afetos ao direito à vida, muito se discute sobre a existência de um suposto direito de matar por compaixão, matar para livrar da dor o doente incurável, matar quem suplica a morte. A eutanásia é um dos problemas mais difíceis do Direito Penal, sobretudo por não se restringir a esta área do conhecimento. Aqueles que a defendem desejam combater o poder que o avanço tecnológico veio conferir aos Médicos no controlo do próprio processo de morte do indivíduo. A eutanásia apresenta-se, assim, como um protesto, uma forma de assegurar ao doente o direito de decidir se quer e como quer utilizar a tecnologia a seu favor, em reforço da sua autonomia pessoal.
 
Mas será que a autonomia individual enquanto valor fundamental implica que uma pessoa capaz possa dispor livremente da sua vida? Quais são os limites da autonomia do doente? Será lícito que conte com a ajuda de outra pessoa para tirar a sua própria vida?
 
É de facto paradoxal a justificação teórica da prática da eutanásia, sobretudo tendo em conta que, historicamente, nunca esteve ligada à questão da autonomia. A vasta literatura atribui a origem da eutanásia aos vocábulos gregos eu (boa) e thanatos (morte), querendo expressar morte piedosa, morte sem dor, morte sem sofrimento. Com efeito, traduz-se num quase deixar morrer naturalmente. A eutanásia foi entretanto perdendo esse sentido, passando a ser entendida como o método ou ato que se destina a provocar a morte do doente desesperado, com fundamento no alívio do seu sofrimento (justificação médica) e no respeito pela sua autonomia pessoal (justificação não médica).
 
A eutanásia, na verdade, é a ação ou omissão pela qual o Médico põe termo à vida do paciente gravemente doente, a seu pedido ou para libertá-lo da dor e do sofrimento insuportável, visando possibilitar-lhe uma morte humanamente digna. É o que se designa, mais atualmente, de homicídio por compaixão ou de ajuda para morrer, a fim de eliminar toda a dor física ou psíquica.
 
O fato da eutanásia implicar a intervenção de um Médico não é desprovido de sentido. Aliás, a eutanásia deve ser compreendida como um ato médico, ou seja, como um ato próprio e restrito da Medicina. Isto porque a eutanásia ou qualquer outro tipo de ajuda para morrer pressupõe a avaliação médica sobre a irreversibilidade do quadro clínico que conduzirá à morte, sobre a legitimidade do pedido do paciente ou de seus familiares, bem como sobre os métodos a serem adotados, de modo a que o processo se desencadeie com segurança e da forma mais confortável para o doente.
 
Mas se por um lado a eutanásia é a antecipação da morte de quem definha, por outro lado a missão da Medicina é lutar contra a doença. Esta dicotomia provoca uma grande tensão em torno do assunto, uma vez que a manutenção da vida a todo o custo pode conduzir a um efeito tanto ou mais criticável, que é a chegada da morte com notável sofrimento e sem vantagens para o paciente. É neste contexto que se coloca a grande discussão entre o prolongamento artificial da vida e o direito de morrer dignamente ou, como preferir, o direito de viver a própria morte, acirrando ainda mais o debate sobre os limites que envolvem o fim da vida e a real dimensão da tutela jurídica do doente.
 
Com efeito, os defensores da eutanásia negam toda a espécie de conduta médica despropositada. Nesta medida, diante dos inúmeros relatos de casos judiciais onde se discute o direito de morrer dignamente – seja reconhecendo-o previamente, seja perdoando aquele que deu a morte a pessoa enferma – pode parecer equivocado que poucos países aceitem e pratiquem a eutanásia. Isto porque, é muito comum o termo eutanásia ser utilizado de forma imprecisa.
 
Muitas vezes, a eutanásia – ato pelo qual alguém retira a vida a outra pessoa – é referida indistintamente como suicídio assistido – ato pelo qual alguém ajuda terceiro a pôr termo à sua própria vida. Um exemplo clássico de suicídio assistido é o do Médico de Detroid (EUA) Jack Kevorkian, que ficou conhecido nos anos 90 como Dr. Morte, por ter criado várias “máquinas de suicídio” e instalado em sua carrinha Volkswagen, para onde levava os pacientes.
 
Outras vezes, confunde-se a eutanásia com a distanásia, que é o seu inverso, a morte protelada; e a estas duas ainda se contrapõe a ortotanásia, que é a morte no tempo certo. No caso da ortotanásia o Médico não interfere no processo natural da morte, nem para antecipá-lo nem para adiá-lo. Mantém apenas os cuidados básicos no doente. Deste modo, a prática da ortotanásia é largamente aceita tanto pela Ética médica como pelo Direito. É, em verdade, a restrição do uso de certos recursos por serem considerados desproporcionados e, portanto, medicamente inadequados.
 
Ainda, não raramente confunde-se o significado da ortotanásia com o da eutanásia passiva, obscurecendo ainda mais o sentido dos debates, na medida em que coloca no mesmo plano todo o tipo de abstenção de tratamento. Trata-se, na realidade, de uma imprecisão conceitual, pois na eutanásia passiva suspende-se deliberadamente as medidas de suporte vital indicadas para o caso, enquanto na ortotanásia suspende-se as medidas que perderam sua indicação por resultarem inúteis para o doente.
 
É importante ter presente que a eutanásia é sempre concebida como uma atuação, positiva ou negativa, dirigida a provocar a morte de outra pessoa. Daí que a eutanásia de fato corresponde ao crime de homicídio, pois a conduta do agente resulta na morte de alguém. Mas a distinção entre eutanásia ativa e passiva – ou a diferença moral entre matar (killing) e deixar morrer (allowing to die) – não é tão linear quanto parece. Se assim fosse, então o Médico que desliga a máquina que mantém o paciente vivo, mata-o; enquanto aquele que recusa-se a colocar o doente numa máquina de suporte de vida, simplesmente deixa-o morrer.
 
Tradicionalmente, aceita-se valorações diversas para a eutanásia ativa e passiva. Ao mesmo tempo em que não se aceita acabar intencionalmente com a vida de uma pessoa, aceita-se que, em certos casos, se deixe de socorrer a medidas para manter a vida. Tudo dependerá das circunstâncias concretas de cada caso e dos limites que se possa estabelecer, embora não se deva ignorar que a eutanásia passiva todos os dias seja praticada nos hospitais do mundo inteiro.
 
No entanto, ao contrário do que pode parecer, a eutanásia passiva não é lícita, na medida em que deixa morrer o paciente por omissão de cuidados médicos. É neste contexto que se discute uma das maiores controvérsias em torno do assunto, referente ao tratamento jurídico que deve ser dispensado à conduta do Médico que desliga os aparelhos de suporte de vida do doente, não consideravelmente em final de vida. Parte da doutrina considera que consiste numa conduta ativa e via de regra passível de punição; mas a corrente maioritária inclina-se para concebê-la como uma conduta passiva, de interrupção técnica de tratamento e, portanto, de omissão de uma atividade de esforço adicional ou de ulterior tratamento.
 
Apesar de ilícita, a conduta do Médico poderá ficar impune, se fundada no consentimento do doente para a interrupção do tratamento. Ou seja, a eutanásia passiva será legítima se apoiada na vontade do paciente recusar o tratamento médico, mesmo que ponha em risco a sua própria vida ou que a omissão seja a causa suficiente de sua morte. Tal direito enquadra-se na dimensão da própria dignidade da pessoa humana, como reza a Carta dos Direitos das Pessoas Doentes, aprovada pela Organização Mundial de Saúde em 18 de Junho de 1996.
 
Assim, o consentimento informado funciona como o limite da obrigação jurídica de curar, mas é necessário que a recusa do tratamento não padeça de vício relevante, como quando o doente não tem o pleno conhecimento da situação em que se encontra. No caso dos pacientes inconscientes de modo irreversível ou que já não estão em condições de decidir de forma responsável, é necessário recorrer-se à sua vontade presumida, ou, ainda, quando se está diante de doentes menores, o consentimento terá que ser dado pelos seus representantes legais.