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domingo, 27 de outubro de 2013

Só quem os tem...

Há uns dias a irritação me consome mais do que o normal. Durmo mal, preocupa-me as obrigações com o trabalho: a tese sem grandes progressos, a revisão editorial de artigos que não acaba, os dois artigos que me comprometi a escrever, o inglês, a falta de tempo que assola a humanidade... Preocupa-me outras questões importantes! E o cansaço vem em desassossego, vontade de me encolher, não ouvir ruído algum, reclamações nem pensar! Nem com a ervilha no arroz, nem com as couves na sopa, nem com o cocó, a roupa que não seca, a hora do banho, o ritual para dormir... E nessas horas, melhor não me queixar, há sempre alguém que sabe mais e traça o diagnóstico completo de minhas falhas, com prognóstico e tudo. Nessas horas, descubro que, se calhar, sou mãe a mais, estou presente demais quando estou com elas naquelas horas que nos restam para estarmos juntas. Devo ter o meu espaço, tomar posse dele, proibir a entrada. E chego a pensar que o amor deveria ser vendido em frasquinhos de 200, 500 ou 1000ml, deveria vir acompanhado por bula e uma seringa de administração das doses recomendadas para cada usuário. A gente chegava numa parafarmácia e pedia um frasquinho de amor mini ou médio ou um pouco maior, depois, conforme fosse, íamos fazendo o desmame! Bem, isso tudo seria um sonho, mas só quem é mãe, quem conscientemente quis ser mãe mais de uma vez e que não vê nisto um estatuto, nem uma obrigação que se delega, sabe o quanto é difícil administrar aos filhos amor em doses homeopáticas. No fundo, os filhos são o reflexo de nós mesmos! E o cansaço? Outro dia li no blog de uma amiga querida um post onde conta a história de uma pessoa próxima, uma mulher como tantas outras, que a dada altura da vida quis descansar. E se cansou de descansar. E sentiu-se só, mais do que isto, sentiu-se vazia. E suicidou-se. Isto sim é que é tristeza! Eu, de vazio, não me posso queixar!    

O vídeo, abaixo, do poema Enjoadinho de Vinicius de Moraes declamado por Paulo Autran, foi um alento!



quinta-feira, 17 de outubro de 2013

"É melhor ser alegre que ser triste"

A propósito de uns problemas que me atormentam... e que vêm de longe... nada como cantar um samba!
 
"É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza...
Senão não se faz um samba não
 
Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E para ser só perdão
 
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança...
De um dia não ser mais triste não
 
Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinada em baixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba
 
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia...
Ele é negro demais no coração...
 
(Vinicius de Moraes/Baden Powell)
 

 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Infrações disciplinares vs. Descontos na mesada: Certo ou errado?

Cá estou, de volta, com a minha mania de dar palpites! Evidentemente, têm todos o direito de discordar e fica assim o dito pelo não dito, neste caso, é só a opinião de uma mãe que aprende enquanto erra. Mas tinha de comentar a notícia que vi a circular, de um pai que ganhou fama e notoriedade ao partilhar no seu perfil da rede social a planilha que criou com descontos na mesada dos filhos a cada falha dos mesmos. Antes, devo dizer, em meu próprio prejuízo, que sou um tanto quanto disciplinadora, um tanto quanto à moda antiga. Acontece que, se sobrevivi sem traumas de infância aos métodos de disciplina tradicionais, não vejo sentido em repudiar tanto o castigo e, eventualmente, a palmada moderada, como pretende o discurso contemporâneo da educação só à base da conversa, que me soa demagógico. Lá em casa, naturalmente, incentivamos a liberdade de expressão, porém dentro do limite do respeito ao próximo e, em larga medida, do recheio da casa. Também não vejo qual a graça em deixar os brinquedos espalhados pela casa a espera de alguém que os arrume, muito menos em rabiscar os sofás cuja fatura até hoje guardamos! Pode até ser uma modalidade de expressão artística, mas no momento o custo não compensa a arte. E como para manter-se alguma ordem há que reconhecer-se a liderança, também em nossa família os pais são os soberanos. Ora, se a conversa falhar, têm legitimidade para aplicar o castigo. Pelo menos é assim que funcionamos!

Posto isto, a princípio, valorizei a iniciativa desse pai. E de fato teria o seu valor, não fosse o catálogo de infrações tipificadas e, bem vista a coisa, do mercantilismo da relação. Pareceu-me uma ideia bem concebida, até ver que os descontos monetários, como forma de punição, vão desde "Faltar, atrasar ou reclamar para ir à missa" até "não usar óculos"! Pareceu-me... com o maior respeito a esse pai e a ressalva de que o método pode funcionar lindamente com a sua família, mas apreciando a situação a partir da minha ótica isolada... pareceu-me um tanto quanto excessivo, talvez demasiadamente repressivo! Pareceu-me que esta fórmula poderá ser bastante eficiente para a criação de crianças robotizadas, crianças tolhidas demais! Pareceu-me, portanto, uma boa ideia, mas talvez não muito bem executada! Ou seja, a existência de regras de respeito pelo ambiente familiar, de ajuda recíproca e responsabilidade coletiva, ao meu ver, é bom que seja incentivada. Por outro lado, o objetivo de criar nos filhos compromisso e responsabilidade financeira zelando pelo cumprimento das normas, pode em verdade gerar o efeito inversamente pretendido, que é o entendimento de que a regra deve ser cumprida não em razão de sua função ou benefício, mas sim, e o que ainda é pior, por mercenarismo.
 
Por fim, talvez os castigos mais clássicos, do gênero retirar uma regalia ou dobrar as horas de estudo até compreender o significado das atitudes falhas, possam ser os que ainda surtam o melhor efeito. Bem, isto é só o que eu penso, claro, sem nenhuma credencial a mais, a não ser o meu próprio "achismo". Vale o que vale!
 
Fonte: Imagem retirada da Internet
           

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Campanha "a maior energia é a sua". Adoro isto!

Adoro isto! Quando vi pela primeira vez, oh pá, senti que era isto! É tão verdade, é tão sinceramente verdade! A EDP lembrou-se disto, e quem entende do assunto, diz que é uma campanha publicitária com recurso à psicologia. Grande ideia, o resultado foi conseguido!
 
  

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A "mana" faz anos. E como eu gostaria que ela soubesse!

Da segunda família do meu pai, sou a mais velha. Quando ninguém mais contava com isso, veio a "Lala", a minha irmã mais nova, 13 anos de diferença entre eu e ela. Gosto tanto dela, quase como uma filha! Mas ela, meio por culpa, meio pelas circunstâncias, não conhece bem o limite do amor. Com ela, venho sempre aprendendo, a duras penas, que o amor perdoa. E eu, sei lá, a perdoo, sempre! Não por sermos irmãs, mas por gostar dela, quase como uma filha. Ela não sabe, mas às vezes quando estou só, ouço no carro "Ela x Ele na Cidade sem Fim", de Vanessa da Mata, e choro. Já chorei muitas vezes, porque esta canção me faz lembrar dela. É a minha canção para ela. Hoje é o seu 27º aniversário e ainda ontem ela nasceu! Quero dedicar-lhe esta canção, mas quero também que ela saiba, que para hoje, o que mais lhe desejo é um dia verdadeiramente feliz (sendo que ser feliz dá muito trabalho, e às vezes dói, mas não há outra forma de ser verdadeiramente feliz)!
 
 
"Ela não tem preço
Nem vontade
Ela não tem culpa
Nem falsidade
Ela não sabe me amar
Ela não tem jogo
Nem saudade
Ela não tem fogo
Nem muita idade
Ela não sabe me amar
Ela não saberá
Coisa de amor
De irmão
Que ela insiste e que me dá
Toda vez que eu tento
Ela sofre
Poderia ser medo
Mas como é possível
Mas então seu amor não é meu
Nem eu o seu
Pois então que será minha amada
Amadora? (...)"


terça-feira, 20 de agosto de 2013

É verão, mas não é Carnaval!

Há quem diga que o ano só começa depois das férias, o que não deixa de ter a sua lógica! No Brasil, por exemplo, só começa mesmo, mesmo, depois do Carnaval, lá para Fevereiro ou Março! Mas da Bahia de onde eu venho, nunca sem antes estar tudo lavadinho, desde as escadarias do Bonfim ao Rio Vermelho, perfumado com água de cheiro, flores e as bênçãos de Iemanjá. A bem da verdade, depois disto tudo, começam os ensaios para o próximo Carnaval, que se vai afinando Micareta afora. Ora, preparar a maior festa popular do mundo é coisa que exige labor!
 
Daí porque, aborreço-me quando ouço dizer que baiano não trabalha! Acham mesmo que conciliar tanto talento com sol, mar, acarajé e um ofício pelo meio não é trabalhoso? Aliás, na Bahia, trabalhar divertindo-se é modo de vida, razão que leva o meu marido a cismar em querer ser baiano - e nisso já não me meto! É claro que conheço umas almas que "não batem um prego numa estopa", mas tanto lá como aqui! Portanto, tenho de reconhecer que viver assim é para poucos, senão por privilégio, só mesmo por mazela da natureza.
 

Seja como for, tenho saudades daqueles verões metidos a verões, com Carnaval e tudo, como se não fosse assim o ano inteiro! Mas agora a realidade é outra e, para ser sincera, rogo para que o verão com ar de Agosto e férias escolares seja finito: escola, trabalho, fins-de-semana no lugar dos fins-de-semana,  cada coisa no seu sítio!
 
É que, por cá, sem ter por marco institucionalizado o Carnaval, as nossas férias oficiais há tempos já terminaram e assim vamos trabalhando a meio das férias prolongadas das crianças, o que de certa forma nos obriga a inventar formas de sermos todos felizes, de nos desculparmos se não nos apetece fazer niente com esse sol que brilha prenunciando o inverno que não tardará. Do Agosto, queria que nos deixasse ficar a temperatura em torno dos 30º e já bastava!

Agora, sem ter nada a ver com a minha condição, hão de entender que custa-me imenso trabalhar em Agosto, ou melhor, no verão! Com esses dias quentes que ainda mais me remetem aos meus verões tropicais, apetece-me é passear, apetece-me até descer o Mondego à remo, de modo que fico deprimida quando vejo de soslaio os amigos em esplanadas ensolaradas ou em viagens de aventura, exibindo sorridentes os corpos bronzeados entre um mergulho, uma escalada, uma caipirinha e um mojito.
 
Lembram-se da fábula da formiga que passava o verão a armazenar comida para o inverno? Pois bem, há pouco fui recordada que tenho uma tese para produzir, mas além disso, tenho quase sozinha uma família para gerir, pois no que toca ao marido fotógrafo, no verão é quando há mais casamentos. Moral da história: só na Bahia, onde o verão coincide com o Carnaval e dura todo o ano, cigarra canta e formiga bate-palma! 


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Pai...

Ontem comemorou-se o Dia do Pai no Brasil (segundo domingo de Agosto) e eu emudeci. Vi fotos dos amigos com seus heróis, vi os meus amigos heróis, mensagens sentidas circulando pelas redes sociais. Recordei e calei. Há momentos assim, em que as palavras são vazias ou não bastam! E tive pena de ter crescido longe dele, de tantas vezes não nos termos compreendido, de constatar, somente tarde demais, que na maioria das vezes ele estava com a razão. Não sabia era dizê-lo, afastava-nos com um abismo de ideias mal transmitidas e um poço de sentimentos profundo demais! Hoje tranquiliza-me a certeza de que nem a distância e nem a morte afasta-nos, nunca antes me senti tão perto do meu pai! Sinto-o dentro de mim, sinto-o todas as vezes em que reconheço-o nas minhas atitudes, sinto-o quando não ultrajo a sua memória. Tudo o mais é perecível.  

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O balanço das férias

Até há pouco tempo, as férias tinham um sentido quase egocêntrico. Despedia-me do trabalho e rumava para um retiro ensolarado, com o tempo todo dedicado ao ócio. Tem o seu valor e de fato às vezes berro pelo “meu minuto”, mas passou a ser inimaginável férias sem visitas ao zoológico, insufláveis, carrocéis, golfinhos, passeios no comboio turístico e muitos gelados. Deixou-me feliz constatar que temos vindo “afinando” a cada ano e que estes momentos em que estamos todos juntos servem também para conhecermo-nos melhor. Sim, nada é estanque e definitivo, sobretudo quando vemos crescer os filhos, constatamos que nunca sabemos tudo a respeito uns dos outros.
 
A Malu parece que vai gostar de navegar, para a felicidade do pai! É curiosa, inteligente e responsável, para a minha própria felicidade! A Eva é uma exploradora voraz, escaladora nata, teimosa e faminta. E foi presenteada com os olhos mais encantadores que há no mundo, amendoados e de pestanas enormes, que é para nos enfeitiçar e nos fazer esquecer as suas traquinices. O Zé aprendeu a virtude do equilíbrio. Eu talvez tenha conseguido repartir-me sem desintegrar-me, comove-me o amor de minhas filhas, a forma benevolente como perdoam a minha impaciência! Sim, a mãe também faz birras.
 
Contemplei infinitamente o mar, quase terminei de ler um livro. E a avaliar que não sou nada perfeita, sinto-me agraciada pela vida partilhada com eles. Foi a conclusão mais importante que extrai desses dias de férias. Gosto de estar de volta, de refugiar-me no computador, de esquecer de tudo enquanto procuro respostas e soluções, enquanto não penso em mais nada a não ser no que tenho à frente. É o meu instante vital de solidão, além do quê, ter um projeto me mantém sã. Agarro-me a ele como a tábua que me resta em um navio naufragado. No entanto, nada faria sentido se eu não pudesse tê-los, fechar a porta atrás das costas e dedicar-me a ser somente nós. É basicamente isto! 
 




 

domingo, 21 de julho de 2013

De férias!

Uma mulher vai de férias e não leva os seus vestidos "giros", nem saltos altos ou maquiagem. Leva fraldas, termómetro, brinquedos e uma mala cheia de roupas das crianças porque ninguém quer tratar deste assunto. Mas leva dois livros que comprou com este propósito, nada jurídico, que com alguma sorte e disposição lerá.
 
Vai com toda a família para o Algarve, por duas semanas, todos juntos a tempo inteiro. O marido vai a procura de vento, a mulher de brisa, as crianças de diversão continuada. Vez por outra, ela virá aqui, no blog que escreve para se divertir. Mas não muito, é suposto estar de férias! Ainda mais que outro dia uma das rebentas perguntou-lhe: "Mamãe, quando é que tens tempo para mim?". Partiu-lhe o coração! Só não o suficiente para ceder às suplicas do campismo, pelo menos enquanto a caçula não se entretém com algo por mais de 10 minutos.
 
Antes, fez o bolo de banana preferido da família, que logo partilhará convosco! Depois, recarregada de sol e mar, enfrentará feliz os papéis e arquivos que ficam a lhe aguardar. 
 
Au revoir, meus amigos!
 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Notícias de além mar!

No passado dia 2, recebi um e-mail de uma amiga querida, dando-me notícias do Brasil. Dizia assim:
"Oi Nubinha,
E aí, como está? Espero que em paz e com saúde... Já viu como está nosso país? Um caos, o povo nas ruas, bombas de gás lacrimogênio, tiros de borracha e depredações. Hoje várias estradas foram fechadas. Para completar Dilma insiste em plebiscito. Acabou de enviar mensagem ao Congresso. Sei não! Será que caminhamos para uma segunda Venezuela, Bolívia ou mesmo Argentina? Ainda há pouco o Jornal falava sobre a queda da produção industrial pelo quarto mês consecutivo. A inflação começa a aparecer novamente, mesmo de forma discreta. A coisa tá ficando complicada. Como dizem os cartazes nas ruas: 'O povo acordou'.
E as nossas lindas meninas? Beijos nelas. Diga a Lu, que mando um 'abraço apertado, um sorriso dobrado e um amor sem fim'".
E pensei: "Logo agora que estamos consensualmente de olho no lado de lá!". Respondi-lhe rapidamente, mais ou menos assim: 
"... Não sei, mas estamos naquela 'se correr o bicho pega, se ficar o bicho come'. Porque aqui a situação do país não é melhor. O Governo tá caindo, Ministros se demitindo, querem eleições antecipadas, o povo nas ruas, o caos também... Acho melhor irmos para a China!".

Claro que brinquei com a situação! Mas depois fui pensar melhor no assunto, que por sinal não tem graça nenhuma! Eu devo primeiramente esclarecer que a minha amiga é assumidamente de "Centro mais para a Direita" (se é que isto é possível!) e, como é óbvio, nunca simpatizou com nenhum Governo inclinado a posições "esquerdistas". E devo também dizer que eu, ao contrário, a dada altura da minha vida tornei-me defensora das causas sociais mais populares, do tipo "cara pintada" ou "Centro mais para a Esquerda" (se é que isto é possível!).

Não foi sempre assim, visto que fui educada por um pai trabalhador mas que “subiu de classe”, razão suficiente para que, sem nenhuma noção coerente de política, passasse a “preferir” os ideais favoráveis à sua condição de empregador. Talvez este upgrade em minha vida coincida com o meu ingresso na Faculdade de Direito e com o fato de ter amigos das mais diversas fações, o que contribuiu para que eu elaborasse algum esclarecimento sociopolítico, desapegado do que era suposto ser bom só para o “meu umbigo”.

Nasci e cresci num Brasil lutando pela democracia (e afirmando-se como tal), numa época em que, ilusoriamente, os juros da inflação davam rendimento a quem tinha "dinheiro aplicado". Daí porque lembro-me perfeitamente de ouvir o meu pai passar a vida a dizer: “No tempo de Figueiredo é que era bom!”, referindo-se a João Baptista Figueiredo, o último Presidente da ditadura militar brasileira. Não me envergonho de vos contar isto, o meu pai certamente não sabia o que dizia! Provavelmente, do seu lugar “confortável” nos confins do interior da Bahia, sequer se apercebia dos atos de terrorismo e da crescente dívida externa que pela primeira vez levou o Brasil a recorrer ao FMI (Fundo Monetário Internacional).

Em verdade, era a forma desorganizada que o meu pai expressava o seu medo e desesperança diante da crise económica que nos abatia precisamente nas décadas de 80 e 90. Atentem que nós éramos uma família que vivia sobretudo da agropecuária, conseguida pelas mãos calejadas do meu pai trabalhador e pseudo-cacauicultor (o que lhe concedia algum status!), sendo portanto compreensivo que praguejasse contra quem, bem no meio da crise regional cacaueira (os preços do produto despencaram e a lavoura foi devastada pela praga da vassoura-de-bruxa), resolveu confiscar os depósitos bancários dos brasileiros visando conter a espiral inflacionária. Fernando Collor de Mello deve ser na História do Brasil o Presidente com a alma mais vezes encomendada ao Diabo!

Tudo isto para vos dizer que eu não sei o que é viver num país senão em crise. Quando o Brasil começou a sua ascensão económica, eu já cá estava, em Portugal, cuja economia indicia-se em queda vertiginosa, geradora do mesmo terror, mesma desesperança e mesmo caos que me é tão familiar! Não sei se serve como indicador, mas eu cresci, estudei, formei-me, empreguei-me, poupei e comprei o meu primeiro automóvel e a minha primeira casa num país em crise. O que desejo para o futuro de minhas filhas? Que elas cresçam, estudem, formem-se, empreguem-se e aprendam a poupar num país em crise ou não.

Decerto nós somos governados, mas no nosso metro quadrado quem governa somos nós. Somos nós quem decidimos de que lado vamos estar: se do lado de quem luta ou de quem entrega as armas; se do lado de quem espera ou de quem abre o caminho. Sem ter a exata noção disto, muito cedo fui forçada a abrir o meu próprio caminho, era inquieta demais para ficar a espera que os ventos me soprassem!

Com ironia ou não, nunca antes foi tão legível e tão invocado o acordo, expresso ou tácito, que considera Portugal e Brasil dois países irmãos. Diria eu, no meu baianês refinado, que nós somos mesmo é “farinha do mesmo saco”, temos o mesmo ADN (DNA). Portanto, meus caros irmãos portugueses, falando do alto da minha experiência própria e sem nenhum princípio económico sustentável (porque de fato não o tenho, a não ser o aprendido rudemente de forma quase doméstica), a crise deve ser mesmo encarada como uma coisa que sufoca, que tira-nos o sono, rouba-nos o emprego, mata-nos o cão e saqueia-nos a casa. Contudo, nós ainda assim podemos conviver com ela, respeitando-a, sem entretanto nunca nos darmos por vencidos. A crise, no fundo, deve servir para aguçar o nosso engenho. E acho que foi isto, este ensinamento, que de mais valioso e importante o meu pai me deixou! 

Coincidências à parte, deixo-vos com a canção “Meu Caro Amigo”, de Chico Buarque. Para quem não sabe, foi uma carta-cassete que Chico Buarque e Francis Hime gravaram como forma de passar pela censura da ditadura e enviaram para o amigo Augusto Boal, que se encontrava exilado em Lisboa, mandando-lhe notícias do Brasil. Tantos anos passados, caiu como uma luva na versão moderna recriada pelo e-mail de minha amiga. Salve Chico! Ninguém, melhor do que ele, sabe falar de nós!
 
  

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Desapareci, mas não morri!

Não, não morri! Foi só uma espécie de "morte virtual" quase anunciada, saí do "ar", desapareci forçadamente por uns dias... intermináveis dias! Ser mãe tem dessas coisas! É que nós, para além de todos os nossos papéis sociais, pessoais e profissionais, "também" somos mães. Ou será exatamente o contrário: somos mães e "também" desempenhamos outros papéis? Não sei, esta é uma luta que travo diariamente comigo!
 
Mas seja de que modo for, a minha ausência veio na sequencia de uma gastroenterite que a Malu trouxe para casa, seguida de uma conjuntivite viral com outra bacteriana por cima, que descambaram em  consultas, urgências pediátricas e oftálmicas. Salvamo-nos todos, mas a "mãe" termina com um esgotamento assimilado como um processo não criativo (para além de apanhar os "bichos" todos!).
 
Eu tenho uns "comas", no linguajar do marido! Não sou de todo hiperativa, aliás, uma das coisas de que mais sinto falta é de esticar-me numa toalha de praia, virar para um lado, para o outro, ler uma revista "cor-de-rosa", sem me levantar para absolutamente nada: nem apanhar baldinhos, nem catar conchinhas, nem assistir a piruetas felizes, nem correr para o mar, nada, nada mesmo. Mas quando me sinto obrigada a ficar em casa, ao invés de aproveitar para dormir a sesta, por exemplo, dou para arrumar armários. Começo pelos roupeiros e vou até a casa de bonecas do terraço.
 
Deve ser uma espécie de loucura, mas é assim que organizo minhas ideias. É incrível, mas enquanto seleciono coisas - separo as que tenho para dar daquelas que vão para o lixo - a minha cabeça pensante descansa e eu reoriento-me por dentro. E riu imenso das pegadas que as meninas vão deixando pela casa, da personalidade que elas vão desenhando pelos quatro cantos! A Malu tem se revelado uma exímia recicladora, guarda tudo, desde rolos de papel higiénico a caixas vazias de ice tea (para o desespero da mãe compulsiva por limpeza!), que "é para fazer criativas", segundo explica. E por onde a Eva passa, deixa um rastro de DVDs partidos, chinelos perdidos e um banquinho pelo meio, que é para atingir os lugares onde a sua pequenez não alcança.
 
Nessas horas, apraz-me sentir que somos uma família e que funcionamos dentro das condições que nos são impostas, cada um de nós desempenhando o seu papel da melhor forma que sabemos (e conseguimos!). Há renúncias, sem dúvida, umas mais que outras. Há cansaços, angústias, tarefas mal divididas e perguntas que não se calam, livros que não acabamos de ler, textos não concluídos, viagens que não fizemos, peças e filmes que não assistimos, mas por outro lado há uma alegria genuína estampada nas nossas fotografias, que revela o nosso melhor, o que temos de mais terno e nos mantém unidos.
 
Talvez só quem tenha experimentado a solidão rodeada de pessoas compreende ao certo esse meu sentimento! Tudo pode esperar, todos os projetos são adiáveis e realizados no último dia do prazo, impreterivelmente, exceto quando é a "mãe" quem tem de atuar. A "mãe" está sempre pronta e sobressalta ao primeiro chamamento!

Quanto a nós, prometo que esta semana termino de arrumar os armários e que se tudo correr bem, não tardo mais! É que também já sentia saudades de vos escrever!

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Confissões de uma mulher de 40

Nem me apercebi e quando vi já era chegado os 40. Agora cá estou, com ar de incrédula, de que falta qualquer coisa, qualquer sensação nova que só se sente aos 40. Afinal não se passa nada! Ou melhor, vou corrigir o que disse: Pensando bem, quando entrei nos 30 lembro-me de chorar todo o dia, como se o mundo estivesse à beira do fim. E tomei sérias resoluções nesse dia! Foi a partir daí que abri o coração para a pessoa certa, mudei de país, retomei projetos e fui mãe. Portanto, passados 10 anos, não tenho razão para queixar-me que os 40 não é bem aquele dia em que obrigamos-nos a estar felizes, em festa, vestir branco, saltar 7 ondas e comer 12 uvas! Sinto-me como quem acorda numa Segunda-feira e despacha a filha mais velha para a Escola; dá o leite a mais pequena; um beijo de despedida no marido e espera, absorta, por um qualquer raio que diga que é dia de aniversário mas não um qualquer! O dos teus 40 anos!

A verdade é que entrei no segundo ato, na metade que falta da viagem e não me sinto a tal loba dos 40! Quem foi mesmo que disse isso? Talvez a falta de euforia deste dia, para além da sensação estranha de que já percorri boa parte do caminho, deve-se ao facto de esforçar-me para ser feliz todos os dias! E sou, variavelmente.

Costumava brincar que iria comemorar os 40 numa clínica de estética, esticada, plastificada. E nem foi assim tão preciso! Hoje trago comigo as marcas da caminhada, naturalmente, nem feia nem bonita. É o meu desenho, o meu mapa de estrada. Tenho vida, saúde, amores, amigos; tenho planos, sonhos, tenho tudo que mereço, que me proponho. Falta-me só abraçar a minha mãe - para ser perfeito! - e agradecer-lhe a vida. Mesmo assim vou dizer-lhe, de coração, que tenho sido incansável e que a vida me tem sido generosa. Sinto falta do meu pai, hoje mais do que nos outros dias. No mais, acho mesmo que sou corajosa; e acredito, de verdade, que tenho a família que sempre sonhei. Falta-me outras coisas, sem dúvida, mas não se pode ter tudo!

sexta-feira, 17 de maio de 2013

"Crianças... Escola ou casa?" Eis a minha questão, respondeu-me a Educadora de Infância Luísa Ferreira

Os últimos dias não têm sido fáceis! Espero que na próxima semana já eu esteja mais serena, ando cheia de ideias e assuntos, mas por enquanto estão a espera de que o Seminário em que serei Oradora aconteça e corra bem; a espera de que a Maluzinha se recupere e me deixe menos preocupada com a sua saúde; a espera de que encontre uma solução melhor para a Eva…
 
É verdade, estou com a cabeça cheia de preocupações! E não sei por que, comigo nunca me calha uma coisa de cada vez: quando vem, vem sempre aos montes! Acho que é para testar a minha resistência! Em todo o caso, vou seguindo com a adrenalina aos saltos.
 
Por ora, quero partilhar com vocês a minha inquietação com a Evinha. Por opção (e teimosia) tentamos manter as meninas em casa até completarem 3 anos, quando então vão para o Infantário. Com a Malu funcionou lindamente, contei com a ajuda da Elen que foi como uma segunda mãe para nós as duas. Mas depois que a Eva nasceu, imaginem vocês que já vamos na terceira suplente! Até compreendo em parte que, com duas crianças volta e meia hibernando em casa algum vírus, não é um trabalho muito apetecível! Mas elas até colaboram e eu quase que sou a subordinada, na tentativa desesperada de contar com a “pessoa” quando mais preciso! Pois bem, talvez por ironia, sempre que as meninas adoecem acontece algum motivo justificador de falta ao trabalho. E o meu trabalho? Bem, mães não adoecem, nem têm problemas pessoais! O trabalho estará pronto no último round.
 
Decerto toda esta confusão nos fez voltar a reconsiderar a hipótese de colocar a Evinha mais cedo no Infantário. Confesso envergonhada que para mim me custa imenso, acho-a tão pequenininha para já ingressar no protótipo de vida estudantil e laboral, passar todo o dia fora de sua casa, voltar para jantar e dormir! Mas por outro lado, acho que, no caso da Eva, é a melhor solução.Já a Malu é perentória: "Oh, mãe! A mana vai adorar! Ainda mais que vai ser colega da sua amiga Matilde!". 
 
Assim é a opinião da Educadora de Infância Luísa Ferreira (espero que de alguma forma possa acalenta-los também!):
 
“Crianças… Escola ou casa?
Esta é uma questão que os pais se colocam frequentemente. O sentimento que os pais têm pelos seus filhos leva-os muitas vezes a “pesarem na balança” sobre a importância de ir para a escola ou de ficar em casa com os pais ou alguém que os faça as vezes.
Quero tranquilizar os pais, pois além de Educadora de Infância, sou mãe. Devemos deixar os nossos filhotes conviverem/brincarem/socializarem-se com outras crianças. Por vezes, o nosso instinto protetor não os deixa usufruírem de algo muito importante pelo qual só passam uma vez na vida: o contato com outras crianças.
Tudo na vida tem a sua idade adequada e asseguro que as crianças têm necessidade de passar pelas vivências necessárias de cada idade! Portanto, deixem os vossos filhotes usufruírem de todas as experiências que a escola lhes proporciona. E atenção: Na escola também têm mimos, carinhos e afetos que eles não esquecerão quando forem mais crescidos!”
 

terça-feira, 30 de abril de 2013

O Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, um natimorto

Escrever uma tese ou um trabalho com interesse científico pode parecer simples mas a mim a tese apavora, confronta e deprime. Às vezes, como forma de minimizar o meu desconforto, brigo com ela (amuo mesmo!) e digo-lhe em alto e bom som que ela é maior do que eu. Tem sido uma briga de titãs, sobretudo porque não faço ideia do que existe ao fim da tese! Seja lá o que for, obrigo-me a cumprir etapas sem pensar no que vem depois.

A minha guerra com a tese começa já pela forma escrita. Quando defendi o Projeto (que na dúvida escrevi segundo as normas ortográficas de Portugal), a primeira advertência feita pelo Arguente foi para seguir o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. O que de certo modo me deixou "baralhada"! Isto porque, apesar de integrar a lusofonia, levei anos para "domesticar" o meu "brasilês" pouco formal ou mesmo arcaico (segundo me disseram!), sendo este um facto que procuro contornar. A dificuldade é acrescida, considerando que já confundo algumas regras ortográficas do meu português brasileiro com as do português de Portugal. 

À partida, o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa parece ser um alento caso venha a vigorar dentro dos seus propósitos, isto é, instituir uma ortografia oficial unificada, pondo fim às divergência existentes entre as normas ortográficas aplicadas no Brasil com as dos outros países de língua portuguesa. No entanto, as dúvidas persistem visto que o Acordo não tem conseguido o consenso dos linguistas e académicos, continuando desta forma com a sua obrigatoriedade suspensa.

O Acordo conta com a subscrição de todos os membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) mas recentemente Angola assumiu uma posição contrária à sua vigência. Aliado a isto, no Brasil, o período de transição para a implementação das novas regras foi prorrogado para 31 de Dezembro de 2015 (o prazo original ia até 31 de Dezembro de 2012), alegadamente por exigir um maior tempo de maturação e para coincidir com o calendário de Portugal. As novas normas, portanto, continuam sendo de aplicação facultativa (aceitam-se as duas grafias) pelo menos até final de 2015 (no Brasil e em Portugal), mesmo já tendo sido adotadas pelas editoras, revistas e jornais.

São inúmeras as críticas que se fazem ao Novo Acordo. Há quem diga que o mesmo nunca prevalecerá, porque na realidade quem faz a língua é o povo, cujas particularidades são intransigíveis. Outros defendem que o Acordo precisa ser simplificado ou vamos todos correr o risco de voltar à velha "decorrera" de sempre. Mas o certo é que o Acordo, datado de 1990, já está desfasado e pelo visto não tem se prestado a cumprir a função político-cultural para a qual foi concebido.

Em suma, desconfio que o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, de tão velho, caia em desuso antes mesmo de chegar a ser! Aliás, pensando bem, é provável que já tenha nascido morto!

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A visita da D. Mentirinha

Passou-se uma semana, um susto, algumas horas de reflexão e finalmente estou refeita, de modo que já posso partilhar o assunto. Não riam, mas quem me conhece sabe o quanto a mentira me apavora, é sempre um reviver de coisas desagradáveis quando “a tal” me bate à porta! Foi então com um certo espanto que eu recebi a notícia da visita da D. Mentirinha.
 
Como devem imaginar, a personagem principal desta história é a Malu, a minha primogênita em idade pré-escolar. Para ser justa, tenho de ressalvar que a Malu normalmente é muito bem comportada e, afora o fato de ultimamente não querer falar às pessoas (deixando a mim e ao pai desconcertados!), é uma criança meiga e tranquila. Mas naquele dia a Malu surpreendeu-nos a todos! Acusou injustamente um colega de classe de ter sido o autor dos rabiscos na mesa e, em ricochete, ficou sem direito ao saco surpresa do aniversariante do dia. O que de pior lhe poderia acontecer, se aquele recipiente continha o melhor e mais bonito caderno da Pucca que há no mundo?
 
Eu quis relativizar, visto o drama em que me meti. Daí que, primeiro expliquei-lhe a gravidade da situação, com a minha conversa maternal politicamente correta, e em seguida saí com esta: “A mãe também mentiu quando tinha 5 anos e também foi punida por isso, mas sempre que a mãe fazia alguma coisa parva, tentava aprender e não voltar mais a errar”.
 
Promessas feitas e juras sacramentadas, a vida voltou ao normal. Até que, passados alguns dias, a Malu foi outra vez apanhada pelo detetor de mentiras. Não deu outra: ficou sem direito aos cromos da caderneta da Monster High, nova coqueluche na escola. E quem disse que vida de criança é fácil? Mais dramas, mais lágrimas e um desenho onde a mãe aparece  ao seu lado, mas com os cabelos arrepiados?! O mistério somente foi desvendado pela Mariana, sua amiga preferida: "Foi porque não lhe compraste os cromos da Monster High!". Oh, vida!
 
É claro que nem sempre tenho esta paz de espírito, de modo que foi com alegria que constatei que a mentira faz parte do crescimento saudável das crianças entre os 3 e os 7 anos de idade, já que nessa altura não dissociam muito bem a fantasia da realidade. Com efeito, são levadas a mentir normalmente para ocultar uma ação reprovável ou fugir da responsabilidade. Os psicólogos, via de regra, afirmam que desde que este comportamento não continue a se repetir em idade mais avançada, não é considerado um problema. Após os 10 anos, no entanto, poderá depender de um diagnóstico em consultório, mas em todo o caso a “mitomania” tem tratamento (graças a Deus!), que pode durar até dois anos.
 
Portanto, folgo em saber que está tudo sob controlo, mas é com desagrado que vos comunico que a mentira perambula lá por casa, serelepe e faceira! 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

"Já posso sair do castigo?"

Depois de minha experiência não muito bem sucedida com os manuais e o sono das crianças, abandonei-os de vez (não que não resultem, mas antes por opção). Leio um livro ou outro com qual título me identifico – estou a ler Eduardo Sá, «Más Maneiras de Sermos Bons Pais», Alfragide: Oficina do Livro, 2008 –, mais para distrair, para descomprimir dos pesados e sisudos livros jurídicos que me acompanham. Normalmente o faço “depois que a casa dorme”, como costumo dizer.

Às vezes, nesses momentos que me dedico, revejo o dia e questiono-me sobre os meus papéis, as minhas atitudes e as dos outros perante mim. Às vezes perco o sono, às vezes não encontro respostas para as inúmeras questões que me coloco, às vezes sou cruel comigo e me ponho de castigo. 
 
Isso do castigo é para já uma coisa que me aflige! Como disse, há tempos desisti das respostas prontas e desde que assumi seguir as minhas intuições, de fato sou uma pessoa mais tranquila, mas fico sempre em dúvida quando se trata da disciplina com as crianças. Entendam, eu tenho lá em casa uma inquiridora com apenas 5 anos, que sabe-se lá a quem saiu, conhece bem os seus direitos infantis! É muito comum ouvi-la bradar: “Mas eu não sou obrigada a gostar das couves!” (e tem razão!), ou então, “Por que é que a mãe sempre manda?”. Explico-lhe, com o meu discurso proativo, que a mãe não manda, a mãe educa, para o seu próprio bem, o que é bem diferente. Mas a verdade é que a mãe também manda!
 
Nessas ocasiões me imponho algum rigor para não ser deliberadamente ditadora, não sendo complacente. O que não é fácil, sobretudo quando não tenho respostas a dar às reclamações de uma revolucionária-mirim!
 
Assim, vou mais ou menos levando as coisas de forma consensual, especializei-me em negociações, mas vez por outra “passo-me”, literalmente. Ontem, passei-me. E apliquei a penalidade máxima: o castigo.
 
Agora me digam, quanto tempo deve durar um castigo? Faço-me sempre esta pergunta e até hoje não encontrei a solução. Os tais manuais falam em “moderação” e pregam que os castigos devem ser aplicados com os "pais serenos", eu tenho sempre vontade de rir quando leio estas regras de ouro! Com a minha visão positivista, fico pensando se não seria mais fácil se tivéssemos um Código Disciplinar Doméstico, com a sanção cominada a cada crime e os critérios de dosimetria da pena. De modo que já não me enrolaria quando a infratora gritasse: “Já posso sair do castigo?”. E eu, muito atrapalhada, tivesse de sentenciar: “Ainda não!?”. Mas, qual a medida exata do castigo? O certo é que ficamos, nós as duas, de castigo.
 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

"Onde dorme um português, dormem dois ou três"

Esta frase não é minha, é qualquer coisa originária de um provérbio popular que o meu marido, bem-humorado, adaptou à nossa realidade - e que define muito bem o seu sentimento diante da suposta “cama do casal”. Me enchi de coragem e decidi contar esta história porque penso que, de alguma forma, posso aliviar o coração de muitas mães que, como eu, sucumbiram ao cansaço.
 
Eu fui uma dessas mães primíparas que devoram manuais e revistas especializadas em desenvolvimento infantil, à semelhança de quem está prestes a adquirir um novo veículo e quer saber detalhes sobre o desempenho do motor, consumo, parte elétrica, mecânica, etc. Porém, convicta que tinha tudo mais que estudado e revisado, eis que me nasce a Malu, completamente avessa a todas as minhas expectativas.
 
A Maluzinha, tão pequenina, veio com as cordas vocais no volume máximo, era desesperador! E, pior do que isso, não se calava, não sabia mamar, não dormia, não aceitava biberão (mamadeira) e muito menos chucha (chupeta). Tinha que ser minha filha! Para minimizar o meu estado anímico, dizia para mim mesma: “Tenha calma, cada um tem o filho que merece!”. A minha mãe, com a sensibilidade que lhe é peculiar, arrematava: “Você era igualzinha!”, do gênero, “Portanto, aguente!”. O resultado era previsível, ou seja, a mãe, que sempre fora tão independente, estava de rastos, à beira de um colapso. Lembro-me de em prantos desabafar com a minha amiga Alice Lisboa: “Lilica, ela parece um rabinho, está sempre atrás de mim!”.
 
Mas o fato é que, junto com o filho, nasce o tal “amor materno” e aqueles pequenos olhos aflitos foram aos poucos me fazendo entender que a minha sonhada e planeada bebé precisava mais de mim do que o normal! Foi assim que me tornei para sempre cúmplice da Malu, tendo intuitivamente percebido que tinha ali uma filha cujos manuais não descreveram fidedignamente, restando a nós sobreviver.
 
Muitos dias e noites após, em nome da manutenção da família, decidimos nos render e levar a Malu para a “nossa” cama. Reconheço que, por sorte, não tenho um marido muito convencional! Estou certa também que Deus não desampara os fracos e oprimidos, de modo que vejo como outro golpe de sorte o fato de termos ido parar nas mãos do Pediatra que considero o mais humano, mais sensível e mais competente de todo Portugal. Assim, o Dr. J. Guimarães, com a sua calma e sapiência, apenas nos perguntou: “Os pais estão bem? Então a criança está bem”. Tive imensa vontade de abraçar o Dr. J. Guimarães, mas fui contida pela formalidade lusitana que já entranhei!
 
E atrás da Malu veio a Eva! Quem tem mais de um filho sabe bem do que estou a falar, é tendencial que os mais novos copiem as atitudes dos mais velhos. Portanto, impreterivelmente, amanhecemos os quatro na “cama do casal”. Como “em time que ganha não se mexe”, o Pediatra é o mesmo e os pais estão bem, as crianças estão bem, obrigada!
 
Decididamente, os manuais não vigoram lá em casa, o que não impediu que aos poucos fossemos estabelecendo nossas próprias regras de convivência num ambiente mais ou menos democrático (há uma Chefe de Estado não tirânica mas com pulso semelhante à Angela Merkel), sendo entretanto perentório: “Regra Geral: A noite começa cada um na sua respetiva cama. Exceção à regra: Está liberada a cama da mãe, caso alguma infanta acorde no meio da noite”. Claro que, dia sim, dia sim, amanhecemos todos na “nossa" cama.
 
Isto tudo para vos dizer que, apesar de parecer absurdo, esta situação não é incomum. A partilha do sono (ou co-sleeping, na terminologia anglo-saxã) é uma prática cada vez mais corrente na família ocidental, tanto que o conhecido médico norte-americano Richard Ferber, especialista no sono pediátrico, recentemente se retratou relativamente ao posicionamento que defendia que as crianças deveriam aprender a dormir sozinhas para se sentirem independentes, vindo agora a esclarecer que este era um pensamento que dominava na altura, mas que as coisas mudam e, “desde que resulte”, cada família sabe o que é mais adequado à sua rotina de sono. Vejam, com interesse, o artigo publicado na revista Pais e Filhos.
 
De modo que, como veem, afetuosos que somos brincamos com a nossa situação, mas ainda assim, estou a caminho de convencer o Zé a trocarmos a "nossa" cama por uma King Size!
 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Bem-vindos aos meus alfarrábios!

Há muitas maneiras de contar uma história. Algumas são contadas na primeira pessoa, outras escritas a duas mãos, mas há histórias que dispensam locutores, contam-se por si!

Digo isto porque a ideia de criar um blogue veio sendo acalentada no decorrer do último ano, não por falta de ocupação mas precisamente porque, com o nascimento da minha segunda filha, experimentei a angústia de me desdobrar em amor e dedicação sem esquecer de mim.

Este blogue é o meu encontro comigo mesma, a minha faxina interior, o meu instante de solidão criativa e as minhas motivações. Nele, pretendo partilhar os mais variados assuntos, considerando as minhas diversas e indissolúveis facetas de mulher, mãe e jurista, que por sinal combinam muito bem com o diversificado grupo de amigos que orgulho-me em manter apesar da distância (em muitos casos) e apesar do tempo.

Logo, neste espaço pretendo que sejam publicados desde indicações literárias a receitas de culinária, ou seja, questões que afetam e descontraem o nosso dia-a-dia, mas sem perder de vista um dos meus maiores objetivos, que é torna-lo num fórum de discussão de assuntos realmente importantes. Deste modo, vez ou outra haverá uma plataforma para a divulgação de notícias e artigos manifestamente sobre matérias jurídicas (mas não só!) que possam ser esclarecedoras e do grande interesse da maioria dos seguidores.

Alfarrábios são livros antigos de grandes dimensões, o mesmo que calhamaços. Bem-vindos aos meus alfarrábios!