Esta frase não é minha, é qualquer
coisa originária de um provérbio popular que o meu marido, bem-humorado, adaptou
à nossa realidade - e que define muito bem o seu sentimento diante da suposta “cama do casal”. Me enchi de coragem e decidi contar esta história porque
penso que, de alguma forma, posso aliviar o coração de muitas mães que, como
eu, sucumbiram ao cansaço.
Eu fui uma dessas mães primíparas
que devoram manuais e revistas especializadas em desenvolvimento infantil, à
semelhança de quem está prestes a adquirir um novo veículo e quer saber detalhes
sobre o desempenho do motor, consumo, parte elétrica, mecânica, etc. Porém, convicta
que tinha tudo mais que estudado e revisado, eis que me nasce a Malu,
completamente avessa a todas as minhas expectativas.
A Maluzinha, tão pequenina, veio
com as cordas vocais no volume máximo, era desesperador! E, pior do que isso, não se
calava, não sabia mamar, não dormia, não aceitava biberão (mamadeira) e muito
menos chucha (chupeta). Tinha que ser minha filha! Para minimizar o meu estado
anímico, dizia para mim mesma: “Tenha calma, cada um tem o filho que merece!”. A
minha mãe, com a sensibilidade que lhe é peculiar, arrematava: “Você era
igualzinha!”, do gênero, “Portanto, aguente!”. O resultado era previsível, ou
seja, a mãe, que sempre fora tão independente, estava de rastos, à beira de um
colapso. Lembro-me de em prantos desabafar com a minha amiga Alice Lisboa: “Lilica,
ela parece um rabinho, está sempre atrás de mim!”.
Mas o fato é que, junto com o
filho, nasce o tal “amor materno” e aqueles pequenos olhos aflitos foram aos
poucos me fazendo entender que a minha sonhada e planeada bebé precisava mais
de mim do que o normal! Foi assim que me tornei para sempre cúmplice da Malu,
tendo intuitivamente percebido que tinha ali uma filha cujos manuais não
descreveram fidedignamente, restando a nós sobreviver.
Muitos dias e noites após, em nome
da manutenção da família, decidimos nos render e levar a Malu para a “nossa”
cama. Reconheço que, por sorte, não tenho um marido muito convencional! Estou certa
também que Deus não desampara os fracos e oprimidos, de modo que vejo como outro
golpe de sorte o fato de termos ido parar nas mãos do Pediatra que considero o mais
humano, mais sensível e mais competente de todo Portugal. Assim, o Dr. J.
Guimarães, com a sua calma e sapiência, apenas nos perguntou: “Os
pais estão bem? Então a criança está bem”. Tive imensa vontade de abraçar o Dr.
J. Guimarães, mas fui contida pela formalidade lusitana que já entranhei!
E atrás da Malu veio a Eva! Quem
tem mais de um filho sabe bem do que estou a falar, é tendencial que os mais
novos copiem as atitudes dos mais velhos. Portanto, impreterivelmente,
amanhecemos os quatro na “cama do casal”. Como “em time que ganha não se mexe”,
o Pediatra é o mesmo e os pais estão bem, as crianças estão bem, obrigada!
Decididamente, os manuais não
vigoram lá em casa, o que não impediu que aos poucos fossemos estabelecendo
nossas próprias regras de convivência num ambiente mais ou menos democrático
(há uma Chefe de Estado não tirânica mas com pulso semelhante à Angela Merkel),
sendo entretanto perentório: “Regra Geral: A noite começa cada um na sua respetiva
cama. Exceção à regra: Está liberada a cama da mãe, caso alguma infanta acorde no
meio da noite”. Claro que, dia sim, dia sim, amanhecemos todos na “nossa" cama.
Isto tudo para vos dizer que,
apesar de parecer absurdo, esta situação não é incomum. A partilha do sono (ou
co-sleeping, na terminologia anglo-saxã) é uma prática cada vez mais corrente na
família ocidental, tanto que o conhecido médico norte-americano Richard Ferber,
especialista no sono pediátrico, recentemente se retratou relativamente ao posicionamento
que defendia que as crianças deveriam aprender a dormir sozinhas para se
sentirem independentes, vindo agora a esclarecer que este era um pensamento que
dominava na altura, mas que as coisas mudam e, “desde que resulte”, cada
família sabe o que é mais adequado à sua rotina de sono. Vejam, com interesse, o artigo publicado na revista Pais e Filhos.
De modo que, como veem, afetuosos
que somos brincamos com a nossa situação, mas ainda assim, estou a caminho de convencer
o Zé a trocarmos a "nossa" cama por uma King Size!