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sábado, 20 de dezembro de 2014

Ciranda da Bailarina


"Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Berruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem

Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem

Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem

Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem

O padre também
Pode até ficar vermelho 
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem

Procurando bem
Todo mundo tem..."

(Chico Buarque)


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Recordar Camões

Celebra-se a 10 de Junho o Dia de Camões e de Portugal. É o dia em que assinala-se a morte de Luís Vaz de Camões (1580), o poeta lusitano mais famoso de sempre. Muitos não compreendem a razão pela qual a data se mantém como feriado nacional, bem como as comemorações oficiais que este ano foram marcadas pelo discurso interrompido por uma ligeira indisposição do Presidente da República, Cavaco Silva.

Mas a data serve, acima de tudo, para recordar um dos maiores e mais importantes poetas da literatura portuguesa, escritor de Os Lusíadas, o longo épico que retrata episódios da história de Portugal. Mas há também os líricos sonetos, dentre os quais o Soneto 11, incansavelmente recitado e musicado como se vê na versão dos arranjos da banda brasileira Legião Urbana. Chamou-lhe Monte Castelo, o local onde a Força Expedicionária Brasileira (FEB) ganhou a sua primeira batalha durante a Segunda Guerra Mundial, em alusão a um ato de desamor da humanidade e antagonicamente à mensagem da letra. Sublime!

"Soneto 11

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

(Luís de Camões)"


"Monte Castelo, Legião Urbana"
    

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Música para a alma (Bandeira do Divino, Ivan Lins)

Porque é sexta e a minha alma necessita...


Bandeira do Divino
(Ivan Lins)

Os devotos do Divino vão abrir sua morada
Pra bandeira do menino ser bem-vinda, ser louvada, ai, ai
Deus nos salve esse devoto pela esmola em vosso nome
Dando água a quem tem sede, dando pão a quem tem fome, ai, ai

A bandeira acredita que a semente seja tanta
Que essa mesa seja farta, que essa casa seja santa, ai, ai
Que o perdão seja sagrado, que a fé seja infinita
Que o homem seja livre, que a justiça sobreviva, ai, ai

Assim como os três reis magos que seguiram a estrela guia
A bandeira segue em frente atrás de melhores dias
No estandarte vai escrito que ele voltará de novo
E o Rei será bendito, ele nascerá do povo,ai, ai


sexta-feira, 25 de abril de 2014

"Tanto Mar" em homenagem ao 25 de Abril

"Tanto Mar" é uma composição do Chico Buarque de Holanda de meados da década de 70, de cunho político e que, possivelmente, sugere uma carta escrita pelo próprio Chico para o português José Nuno Martins, na altura um dos seus melhores amigos. A letra exalta o fim do regime ditatorial em Portugal (1974). Note-se que desde 1926 Portugal vivia sob um regime de governo autoritário, tendo como figura emblemática António de Oliveira Salazar, que assumiu o governo em 1933 e permaneceu até 1968. Sucedeu-lhe Marcello Caetano, sendo derrubado em 25 de Abril de 1974 pelo próprio Exército português com o apoio da população. A Revolução de Abril ficou mais conhecida como a Revolução dos Cravos. Há várias versões para esta denominação mas a mais popular é a que diz que um soldado solidário à revolução retirou aleatoriamente um dos cravos de uma florista local e pôs na ponta de sua espingarda, gesto que foi imitado por todos os demais. Uma outra, diz que os soldados recebiam flores do povo português no dia da queda do ditador. Foi uma revolução pacífica, sem resistência do governo. Um dado importante é que em 1974 o Brasil ainda vivia sob ditadura, tanto que Chico compôs esta canção em 1975 como forma de convocar o povo brasileiro a seguir o exemplo lusitano. Quando diz: "Lá faz primavera, pá/ Cá estou doente/ Manda urgentemente/ Algum cheirinho de alecrim", pede para que a liberdade também chegue ao Brasil, o que somente sucedeu em 1984. Não foi à toa que a primeira letra da canção (escrita no presente) foi censurada no Brasil e gravada apenas em Portugal, o que obrigou Chico a reescrevê-la (no passado), cuja versão foi gravada no Brasil em 1978. "Tanto Mar" é, sem dúvida, a homenagem mais bonita partida de um estrangeiro para a revolução portuguesa. Hoje diria que apesar da democracia os ideias que sufragaram a revolução, notadamente de contenção económica do governo, continuam a sufocar o povo e a macular a festejada liberdade portuguesa. Por isto - e não só - escolhi esta canção, na minha opinião uma das mais belas da língua portuguesa, de forma a que, passados 40 anos, não nos esqueçamos de reivindicar a manutenção da liberdade sentida de diversas formas, a manutenção de um país livre da ignorância, do desemprego, da pobreza e da falta de perspetiva para nós e os nossos filhos, pela (re)construção de nossa história de liberdade e democracia. 

Fontes consultadas:Blogs "Ame o poema"; História é vidaPortugal através do mundo.   


Tanto Mar (Chico Buarque)

- 1ª versão (1975), censurada -

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor no teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

***

- 2ª Versão (1976), modificada após a censura -

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
Um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto de jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Renato Russo (e quem não se lembra?)

Se estivesse vivo Renato Russo teria completado 54 anos no dia 27 de Março passado, data escolhida pelo seu único filho, Giuliano Manfredini, para lançar o site oficial do vocalista do Legião Urbana. Ícone da Geração Coca-Cola, não há ninguém que tendo crescido nos anos 80 ou que conheça um pouco do rock brasileiro não saiba de cor a letra de Tempo PerdidoPais e FilhosFaroeste CabocloMonte Castelo e Eduardo e Mônica.

O clip de "Eduardo e Mônica", versão da Telefônica Vivo, é simplesmente delicioso. Vamos recordar: 


Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?
Eduardo abriu os olhos, mas não quis se levantar
Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Mônica tomava um conhaque
No outro canto da cidade, como eles disseram
Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer
E conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer
Um carinha do cursinho do Eduardo que disse
"Tem uma festa legal, e a gente quer se divertir"
Festa estranha, com gente esquisita
"Eu não tô legal, não aguento mais birita"
E a Mônica riu, e quis saber um pouco mais
Sobre o boyzinho que tentava impressionar
E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir pra casa
"É quase duas, eu vou me ferrar"
Eduardo e Mônica trocaram telefone
Depois telefonaram e decidiram se encontrar
O Eduardo sugeriu uma lanchonete
Mas a Mônica queria ver o filme do Godard
Se encontraram, então, no parque da cidade
A Mônica de moto e o Eduardo de camelo
O Eduardo achou estranho e melhor não comentar
Mas a menina tinha tinta no cabelo
Eduardo e Mônica eram nada parecidos
Ela era de Leão e ele tinha dezesseis
Ela fazia Medicina e falava alemão
E ele ainda nas aulinhas de inglês
Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus
Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud
E o Eduardo gostava de novela
E jogava futebol-de-botão com seu avô
Ela falava coisas sobre o Planalto Central
Também magia e meditação
E o Eduardo ainda tava no esquema
Escola, cinema, clube, televisão
E mesmo com tudo diferente, veio mesmo, de repente
Uma vontade de se ver
E os dois se encontravam todo dia
E a vontade crescia, como tinha de ser
Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia
Teatro, artesanato, e foram viajar
A Mônica explicava pro Eduardo
Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar
Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer
E decidiu trabalhar (não!)
E ela se formou no mesmo mês
Que ele passou no vestibular
E os dois comemoraram juntos
E também brigaram juntos muitas vezes depois
E todo mundo diz que ele completa ela
E vice-versa, que nem feijão com arroz
Construíram uma casa há uns dois anos atrás
Mais ou menos quando os gêmeos vieram
Batalharam grana, seguraram legal
A barra mais pesada que tiveram
Eduardo e Mônica voltaram pra Brasília
E a nossa amizade dá saudade no verão
Só que nessas férias, não vão viajar
Porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação
E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

segunda-feira, 17 de março de 2014

Águas de Março

"Águas de Março" foi composta em 1972 por Tom Jobim. Anos depois, o maestro brasileiro declarou em várias entrevistas que escreveu esta canção numa época em que se sentia bastante deprimido, cansado, bebia muito e ressentia-se que iria encerrar a carreira cantando "Garota de Ipanema". Em 2001, numa pesquisa conduzida pelo Jornal Folha de São Paulo, a canção veio a ser nomeada como a melhor canção brasileira de sempre. "Águas de Março" teve várias versões regravadas, tanto no Brasil como no exterior, mas a mais famosa deve ser a de 1974, em dueto com Elis Regina. É a que eu mais gosto e, por isso, não terminaria o Março sem partilha-la com vocês.



É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto, é um pingo pingando,
É uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão,
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã,
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
Pau, pedra, fim, caminho
Resto, toco, pouco, sozinho
Caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Abraçaço em Lisboa

Eu adoro, de paixão, o Caetano! E como uma boa baiana, orgulho-me dele, acho-o lindo, emociona-me! A boa notícia é que ele vai estar no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no próximo dia 28 de Abril, com o seu mais recente espetáculo "Abraçaço". Claro que eu já ando a fazer planos!

"Abraçaço" é o 49.º álbum da carreira de Caetano, lançado em 2012, quando o músico completou 70 anos. A crítica considera-o um dos seus maiores e mais ricos trabalhos, tanto que no ano passado lhe rendeu o Grammy Latino. Caetano explica que o título foi inspirado na forma como às vezes finaliza e-mail e, segundo descreve no seu Twitter, "sugere não só um abraço grande mas também um abraço espalhado, abrangente, múltiplo".  

Os bilhetes custam entre 25€ e 55€. Acho que vale o "abraçaço" do Caetano!

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Quando me perco!

Às vezes perco o sono. Repasso o dia, infinitas vezes, em meus pensamentos. E perco o sono. Apavoram-me fantasmas, não do passado mas do futuro. Apavora-me o papel em branco, a tela vazia, as horas perdidas, as palavras desaparecidas. Apavora-me a exclusão, o escuro, o obscuro. Apavora-me não saber ou mesmo saber tão pouco quando era suposto saber tanto! 

Quando sinto-me assim gosto de ouvir no carro algum tipo de música calma, que é quando basicamente o faço! Acredito que as canções podem ser formas do universo comunicar, dizer-nos coisas através da sensibilidade de algumas pessoas, que entretanto também se perdem! Bem, quando não piora a minha melancolia geminiana, deixa-me serena. Hoje ouvi o Luís Represas, um dos meus portugueses favoritos. E cantou-me isto. E eu senti que era mesmo isto. E soube-me bem!


Quando me perco
busco um abrigo
ou um tecto que não tolha os meus sentidos 
E se o teu céu, por ser maior,
cobrir o pranto?
eu vou!

Quando me perco
sigo uma estrela 
que não brilha igual
em todo o firmamento.
E se cair para lá das ilhas encantadas?
eu vou!

Se o teu nome não fosse 
o do pecado,
ou da benção que o céu 
hoje me deu,
nem por montes,
nem por mares
onde o sol nunca nasceu,
perderia o rasto
de um sorriso teu!

Quando me perco
sigo uma voz
que me chama bem do fundo 
das certezas.
Mesmo que chegue 
como um canto de sereia?
eu vou!

Quando me perco
ou se me encontro,
ou se me der para ser banal 
tal como agora,
tudo não passa 
da vontade de dizer?
eu estou!    

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A decifrar «Vaca Profana»

Às vezes, em meus desabafos, confesso que uma de minhas frustrações é não cantar e tocar violão. Até canto, mas com certeza não lotaria o Maracanã! Ou melhor: para ser mais realista, não lotaria o "Concerto mais Pequeno do Mundo" da Rádio Comercial. Mas adoro cantar e canto! Ainda por cima sou inconveniente, canto alto, sobreponho-me ao som original. Pronto, sou uma chata!

Digo isto porque, precisamente no domingo, estávamos nós a ouvir o DVD maravilhoso do Caetano Veloso e da Maria Gadú, quando apaixonei-me pela canção «Vaca Profana» como se estivesse ouvindo-a pela primeira vez. Pus-me então a cantar... e até hoje canto... o que levou-me a querer saber mais sobre a sua letra truncada, fascinante, que arranca já com uma frase tão aguda quanto um soco no estômago: "Respeito muito minhas lágrimas/Mas ainda mais minha risada"; do gênero: valorizo todos os meus momentos difíceis mas valorizo ainda mais o que me faz feliz. Uma sabedoria assim, tinha de vir do meu amado e lindo Caetano!

«Vaca Profana» foi lançada em 1984 e composta para Gal Costa, sendo considerada uma verdadeira ode à Espanha, especialmente à Catalunha. Tem uma poesia belíssima mas de difícil interpretação, que retrata os movimentos artísticos em voga na altura. Nessa canção, Caetano começa por exaltar a necessidade de viver acima das pessoas comuns, daquilo que é considerado normal ("Vaca profana põe teus cornos/Pra fora e acima da manada"). Não se identifica com o senso comum, com a normalidade da vida e mesmo quando confessa à sua irmã a vontade de encontrar o amor, ressalva que não o vê de forma convencional; antes pelo contrário, pretende-o excêntrico, ao estilo Thelonious Monk ("Quero que pinte um amor Bethânia/Stevie Wonder, andaluz/Como o que tive em Tel Aviv/Perto do mar, longe da Cruz/Mas em composição cubista/Meu mundo Thelonius Monk's blues"). O próprio título da canção é uma provocação de Caetano a tudo aquilo que massivamente se julga sagrado. Entretanto, avesso ao que até então critica, talvez mais amadurecido ou como resultado de um demorado processo de autoconhecimento, Caetano acaba por reconhecer que muitas vezes ele próprio age consoante as pessoas "caretas" que tanto censura ao longo da canção ("Mas eu também sei ser careta/De perto ninguém é normal"). Por fim, de forma absolutamente magistral, despe-se da arrogância e, humildemente, compadece-se, por ele e pelos outros ("Gotas de leite bom na minha cara/Chuva do mesmo bom sobre os caretas").

É, sem dúvida, uma canção que reflete bem um percurso de crescimento pessoal do Caetano veloso. Convido-os, todos, a lerem a letra com atenção e cantarem comigo «Vaca Profana».


VACA PROFANA (Caetano Veloso)

Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada 
Inscrevo, assim, minhas palavras 
Na voz de uma mulher sagrada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da man...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Dona das divinas tetas
Derrama o leite bom na minha cara
E o leite mau na cara dos caretas
Segue a "movida Madrileña"
Também te mata Barcelona
Napoli, Pino, Pi, Paus, Punks
Picassos movem-se por Londres
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horizonte
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horiz...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Vaca de divinas tetas
La leche buena toda en mi garganta
La mala leche para los "puretas"
Quero que pinte um amor Bethânia
Stevie Wonder, andaluz
Como o que tive em Tel Aviv
Perto do mar, longe da cruz
Mas em composição cubista
Meu mundo Thelonius Monk`s blues
Mas em composição cubista
Meu mundo Thelonius Monk`s...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Vaca das divinas tetas
Teu bom só para o oco, minha falta
E o resto inunde as almas dos caretas
Sou tímido e espalhafatoso
Torre traçada por Gaudi
São Paulo é como o mundo todo
No mundo, um grande amor perdi
Caretas de Paris e New York
Sem mágoas, estamos aí
Caretas de Paris e New York
Sem mágoas estamos a...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Dona das divinas tetas
Quero teu leite todo em minha alma
Nada de leite mau para os caretas
Mas eu também sei ser careta
De perto, ninguém é normal
Às vezes, segue em linha reta
A vida, que é "meu bem, meu mal"
No mais, as "ramblas" do planeta
"Orchta de chufa, si us plau"
No mais, as "ramblas" do planeta
"Orchta de chufa, si us...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Deusa de assombrosas tetas
Gotas de leite bom na minha cara
Chuva do mesmo bom sobre os caretas...



sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Prece do dia (Metade, Oswaldo Montenegro)

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
A outra metade é silêncio

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Pois metade de mim é partida
A outra metade é saudade

Que as palavras que falo
Não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas como a única coisa
Que resta a um homem inundado de sentimentos
Pois metade de mim é o que ouço
A outra metade é o que calo

Que a minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
A outra metade um vulcão

Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
Que me lembro ter dado na infância
Pois metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade não sei

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Pois metade de mim é abrigo
A outra metade é cansaço

Que a arte me aponte uma resposta
Mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar
Pois é preciso simplicidade para fazê-la florescer
Pois metade de mim é plateia
A outra metade é canção
Que a minha loucura seja perdoada
Pois metade de mim é amor
E a outra metade também

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Que linda é a língua portuguesa!

Que coisa linda! Que lindo quando dois grandes talentos se encontram! Como isto me diz tanto!
 
  

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Centenário do "Poetinha" brasileiro!

No dia 19 de Outubro (sábado passado) comemorou-se o centenário de Vinicius de Moraes. Vinicius de Moraes foi um diplomata, dramaturgo, jornalista, compositor e poeta brasileiro, essencialmente lírico, razão pela qual o seu parceiro e amigo Tom Jobim lhe atribuiu a alcunha "Poetinha", como ficou conhecido.
 
Capa do disco novo
Para homenagear o poeta do amor e das crianças - e apesar de ser quase impossível escolher apenas uma obra diante do rico acervo de Vinicius de Moraes -, resolvi destacar a que guardo com carinho especial e que fiz questão de dar a conhecer às minhas filhas, que são as canções do álbum "A Arca de Noé", originalmente lançado nos anos 80 em dois volumes. Adoro cantar para elas "Menininha", gravada por Toquinho, e elas também adoram ouvir a mãe cantar, mesmo desafinada!
 
Para a minha felicidade (e porque os CDs que tenho estão em péssima qualidade), as canções foram regravadas e lançadas com novos arranjos, em um único volume, mantendo a participação de artistas do projeto antigo, como Chico Buarque, e inéditos como Maria Bethânia, Caetano Veloso, Ivete Sangalo e Seu Jorge. Para mim, é uma dessas coisas que a gente tem de conhecer, de ter guardada, de ouvir mil vezes, de ouvir com nossos filhos e de recomendar. Porque é poesia, é de bom gosto e, quanto mais não seja, é educativo.

            

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

"É melhor ser alegre que ser triste"

A propósito de uns problemas que me atormentam... e que vêm de longe... nada como cantar um samba!
 
"É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza...
Senão não se faz um samba não
 
Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E para ser só perdão
 
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança...
De um dia não ser mais triste não
 
Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinada em baixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba
 
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia...
Ele é negro demais no coração...
 
(Vinicius de Moraes/Baden Powell)
 

 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A cantar o Fado com o Chico!

Hoje vim trabalhar na companhia do Chico (Buarque de Holanda). Adoro o Chico e dificilmente conseguiria dizer, entre ele e o Zeca (Baleiro), qual dos dois prefiro. Mas de fato são dois artistas da musica popular brasileira (MPB) bem diferentes! Gosto imensamente do Chico compositor (na minha opinião, o maior compositor brasileiro), o revolucionário, do lado feminino do Chico. E adoro o lirismo do Zeca, a voz inigualável, as suas influências musicais e aquele seu jeito cool! Esta minha paixão musical bigamia levaria-me a ter que decidir, caso tivesse um filho, entre chama-lo "Chico" ou "Zeca", assim mesmo, em registo. Mas por ora, sem tantos entretantos, foi este o Fado - Fado Tropical, de Chico Buarque e Ruy Guerra - que passou o dia a ressoar em meus ouvidos:
 
 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A "mana" faz anos. E como eu gostaria que ela soubesse!

Da segunda família do meu pai, sou a mais velha. Quando ninguém mais contava com isso, veio a "Lala", a minha irmã mais nova, 13 anos de diferença entre eu e ela. Gosto tanto dela, quase como uma filha! Mas ela, meio por culpa, meio pelas circunstâncias, não conhece bem o limite do amor. Com ela, venho sempre aprendendo, a duras penas, que o amor perdoa. E eu, sei lá, a perdoo, sempre! Não por sermos irmãs, mas por gostar dela, quase como uma filha. Ela não sabe, mas às vezes quando estou só, ouço no carro "Ela x Ele na Cidade sem Fim", de Vanessa da Mata, e choro. Já chorei muitas vezes, porque esta canção me faz lembrar dela. É a minha canção para ela. Hoje é o seu 27º aniversário e ainda ontem ela nasceu! Quero dedicar-lhe esta canção, mas quero também que ela saiba, que para hoje, o que mais lhe desejo é um dia verdadeiramente feliz (sendo que ser feliz dá muito trabalho, e às vezes dói, mas não há outra forma de ser verdadeiramente feliz)!
 
 
"Ela não tem preço
Nem vontade
Ela não tem culpa
Nem falsidade
Ela não sabe me amar
Ela não tem jogo
Nem saudade
Ela não tem fogo
Nem muita idade
Ela não sabe me amar
Ela não saberá
Coisa de amor
De irmão
Que ela insiste e que me dá
Toda vez que eu tento
Ela sofre
Poderia ser medo
Mas como é possível
Mas então seu amor não é meu
Nem eu o seu
Pois então que será minha amada
Amadora? (...)"


sexta-feira, 5 de julho de 2013

Notícias de além mar!

No passado dia 2, recebi um e-mail de uma amiga querida, dando-me notícias do Brasil. Dizia assim:
"Oi Nubinha,
E aí, como está? Espero que em paz e com saúde... Já viu como está nosso país? Um caos, o povo nas ruas, bombas de gás lacrimogênio, tiros de borracha e depredações. Hoje várias estradas foram fechadas. Para completar Dilma insiste em plebiscito. Acabou de enviar mensagem ao Congresso. Sei não! Será que caminhamos para uma segunda Venezuela, Bolívia ou mesmo Argentina? Ainda há pouco o Jornal falava sobre a queda da produção industrial pelo quarto mês consecutivo. A inflação começa a aparecer novamente, mesmo de forma discreta. A coisa tá ficando complicada. Como dizem os cartazes nas ruas: 'O povo acordou'.
E as nossas lindas meninas? Beijos nelas. Diga a Lu, que mando um 'abraço apertado, um sorriso dobrado e um amor sem fim'".
E pensei: "Logo agora que estamos consensualmente de olho no lado de lá!". Respondi-lhe rapidamente, mais ou menos assim: 
"... Não sei, mas estamos naquela 'se correr o bicho pega, se ficar o bicho come'. Porque aqui a situação do país não é melhor. O Governo tá caindo, Ministros se demitindo, querem eleições antecipadas, o povo nas ruas, o caos também... Acho melhor irmos para a China!".

Claro que brinquei com a situação! Mas depois fui pensar melhor no assunto, que por sinal não tem graça nenhuma! Eu devo primeiramente esclarecer que a minha amiga é assumidamente de "Centro mais para a Direita" (se é que isto é possível!) e, como é óbvio, nunca simpatizou com nenhum Governo inclinado a posições "esquerdistas". E devo também dizer que eu, ao contrário, a dada altura da minha vida tornei-me defensora das causas sociais mais populares, do tipo "cara pintada" ou "Centro mais para a Esquerda" (se é que isto é possível!).

Não foi sempre assim, visto que fui educada por um pai trabalhador mas que “subiu de classe”, razão suficiente para que, sem nenhuma noção coerente de política, passasse a “preferir” os ideais favoráveis à sua condição de empregador. Talvez este upgrade em minha vida coincida com o meu ingresso na Faculdade de Direito e com o fato de ter amigos das mais diversas fações, o que contribuiu para que eu elaborasse algum esclarecimento sociopolítico, desapegado do que era suposto ser bom só para o “meu umbigo”.

Nasci e cresci num Brasil lutando pela democracia (e afirmando-se como tal), numa época em que, ilusoriamente, os juros da inflação davam rendimento a quem tinha "dinheiro aplicado". Daí porque lembro-me perfeitamente de ouvir o meu pai passar a vida a dizer: “No tempo de Figueiredo é que era bom!”, referindo-se a João Baptista Figueiredo, o último Presidente da ditadura militar brasileira. Não me envergonho de vos contar isto, o meu pai certamente não sabia o que dizia! Provavelmente, do seu lugar “confortável” nos confins do interior da Bahia, sequer se apercebia dos atos de terrorismo e da crescente dívida externa que pela primeira vez levou o Brasil a recorrer ao FMI (Fundo Monetário Internacional).

Em verdade, era a forma desorganizada que o meu pai expressava o seu medo e desesperança diante da crise económica que nos abatia precisamente nas décadas de 80 e 90. Atentem que nós éramos uma família que vivia sobretudo da agropecuária, conseguida pelas mãos calejadas do meu pai trabalhador e pseudo-cacauicultor (o que lhe concedia algum status!), sendo portanto compreensivo que praguejasse contra quem, bem no meio da crise regional cacaueira (os preços do produto despencaram e a lavoura foi devastada pela praga da vassoura-de-bruxa), resolveu confiscar os depósitos bancários dos brasileiros visando conter a espiral inflacionária. Fernando Collor de Mello deve ser na História do Brasil o Presidente com a alma mais vezes encomendada ao Diabo!

Tudo isto para vos dizer que eu não sei o que é viver num país senão em crise. Quando o Brasil começou a sua ascensão económica, eu já cá estava, em Portugal, cuja economia indicia-se em queda vertiginosa, geradora do mesmo terror, mesma desesperança e mesmo caos que me é tão familiar! Não sei se serve como indicador, mas eu cresci, estudei, formei-me, empreguei-me, poupei e comprei o meu primeiro automóvel e a minha primeira casa num país em crise. O que desejo para o futuro de minhas filhas? Que elas cresçam, estudem, formem-se, empreguem-se e aprendam a poupar num país em crise ou não.

Decerto nós somos governados, mas no nosso metro quadrado quem governa somos nós. Somos nós quem decidimos de que lado vamos estar: se do lado de quem luta ou de quem entrega as armas; se do lado de quem espera ou de quem abre o caminho. Sem ter a exata noção disto, muito cedo fui forçada a abrir o meu próprio caminho, era inquieta demais para ficar a espera que os ventos me soprassem!

Com ironia ou não, nunca antes foi tão legível e tão invocado o acordo, expresso ou tácito, que considera Portugal e Brasil dois países irmãos. Diria eu, no meu baianês refinado, que nós somos mesmo é “farinha do mesmo saco”, temos o mesmo ADN (DNA). Portanto, meus caros irmãos portugueses, falando do alto da minha experiência própria e sem nenhum princípio económico sustentável (porque de fato não o tenho, a não ser o aprendido rudemente de forma quase doméstica), a crise deve ser mesmo encarada como uma coisa que sufoca, que tira-nos o sono, rouba-nos o emprego, mata-nos o cão e saqueia-nos a casa. Contudo, nós ainda assim podemos conviver com ela, respeitando-a, sem entretanto nunca nos darmos por vencidos. A crise, no fundo, deve servir para aguçar o nosso engenho. E acho que foi isto, este ensinamento, que de mais valioso e importante o meu pai me deixou! 

Coincidências à parte, deixo-vos com a canção “Meu Caro Amigo”, de Chico Buarque. Para quem não sabe, foi uma carta-cassete que Chico Buarque e Francis Hime gravaram como forma de passar pela censura da ditadura e enviaram para o amigo Augusto Boal, que se encontrava exilado em Lisboa, mandando-lhe notícias do Brasil. Tantos anos passados, caiu como uma luva na versão moderna recriada pelo e-mail de minha amiga. Salve Chico! Ninguém, melhor do que ele, sabe falar de nós!
 
  

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Santo António de Lisboa, de Padova e de todos nós!

Por ser Dia de Santo António, minhas memórias me levam de volta à infância e ao início das festas juninas, que têm um significado especial para quem vem do interior do Nordeste brasileiro; mas principalmente, ao meu pai, pela sua predileção a este Santo. 

Talvez não por acaso o destino me trouxe à Coimbra, onde o Santo estudou, e à Lisboa, de onde proveio. Talvez por uma qualquer interceção paterna, Ele me proteja! Talvez por isto o meu coração tenha ficado tão pequenino, impossibilitando-me de conter as lágrimas quando a Maluzinha, aos 5 meses, fora abençoada na Basílica de Santo António de Padova, local onde repousam os seus restos mortais. Talvez nenhuma coincidência me tenha guiado à Clínica de Santo António, onde a Evinha nasceu. Nem desconfiaram que quando me presentearam com a imagem do Santo vinha oculto naquele gesto a presença do meu pai que só eu sentia!

Venho, portanto, somente louvar, do modo que sei, o glorioso Santo António, mais um português adorado pelos brasileiros, o Santo do meu coração! O Hino a Santo António, interpretado majestosamente por Maria Bethânia, é a minha Oração.